<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778</id><updated>2011-07-15T01:37:28.429+01:00</updated><title type='text'>Labirinto nosso</title><subtitle type='html'>Vinte anos depois do seu primeiro encontro, um grupo de amigos junta-se nesta tertúlia fragmentada e em banda larga

(Uma obra de ficção, por Luís Naves)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>92</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116404229090759833</id><published>2006-11-20T17:03:00.000Z</published><updated>2006-11-20T17:10:17.753Z</updated><title type='text'>Balanço</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Para cada uma das nossas aventuras, há sempre um momento de balanço. Não sei se me antecipo, se deva avançar mais algum tempo, mas parece-me que esta é uma hora tão boa como outra qualquer.&lt;br /&gt;O Labirinto surge devido a uma inquietação: se temos aqui a tecnologia, até que ponto é possível usá-la para fazer literatura. A questão não é fácil de abordar, mas tenho pensado muito nela. Há exemplos de blogues literários (alguns, excelentes, constam da lista de links). Penso que este meio é ideal para a prática da crónica, da crítica e até do conto curto. Mas a novela é outra coisa.&lt;br /&gt;As limitações começam naturalmente no autor. Quando lancei este conjunto de histórias, precipitei-me, não parei para conceber melhor o universo imaginário, não preparei o terreno das personagens, quis experimentar, improvisar, cortar etapas. A ideia era criar uma espécie de ambiente de jazz, com música feita à medida da improvisação constante. Melhor imagem será dizer que era música de garagem: imaginem um grupo de rock que tenta, experimenta, imita, e sobretudo inventa sem se preocupar com o resultado final. Os grandes problemas surgem quando os músicos saem da garagem e enfrentam um meio habituado à qualidade. Para quê perder tempo a ler literatura improvisada, quando será bem melhor ler um romance a sério, devidamente trabalhado, escrito em papel?.&lt;br /&gt;A minha ideia inicial era não me preocupar excessivamente com as naturais flutuações de qualidade dos textos, dada a natureza imprecisa do meio. A estrutura não podia ser idêntica à de um romance tradicional, pois haveria leitores a entrarem aqui a meio, outros a lerem uma vez por semana, muitos a caírem de pára-quedas nesta cena. Cada post teria de valer por si mesmo; cada história seria independente.&lt;br /&gt;Onde penso ter falhado mais foi na concepção das personagens. Teresa não funciona, ponto. Não tem espessura, não parece autêntica; Jorge é impreciso; Cláudio escreve demasiado bem para a cultura que deverá possuir. As personagens femininas são pouco consistentes. Os textos têm excesso de sentimentalismo e, sobretudo, flutuações excessivas na respectiva qualidade, mas sempre num estilo monocórdico. Exactamente o inverso do que devia ser. Tentei também fazer histórias a várias vozes, mas nenhuma conseguiu riqueza de nuances ou profundidade de ideias.&lt;br /&gt;Por vezes, este romance é simplesmente chato. Não há humor e penso que os leitores nunca conseguem envolver-se com as figuras. Estas, portanto, não mexem, não têm entranhas, não parecem sinceras. Estes textos não incomodam, não perturbam, não têm polémica.&lt;br /&gt;Enfim, é o que penso deste blogue experimental. Mas, já que vos roubei tanto tempo, peço-vos um pouco mais de paciência: gostaria de conhecer a opinião dos leitores sobre isto, mas também sobre o problema inicial, será possível escrever um romance na forma de blogue? Deixem aqui o vosso comentário, que agradeço...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116404229090759833?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116404229090759833/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116404229090759833' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116404229090759833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116404229090759833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/balano.html' title='Balanço'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116387967072220774</id><published>2006-11-18T19:51:00.000Z</published><updated>2006-11-18T20:13:25.920Z</updated><title type='text'>O ritmo dos Blues</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/1600/Sidran.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/320/Sidran.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;É preciso chegar cedo ao Café Central. Ontem, pouco passava das nove da noite, quando ocupámos uma mesa e ficámos por lá, até à hora em que começava o concerto de jazz. O pequeno espaço enchera-se de entusiastas, repleto de fumo e com o vozear de pessoas que falavam alegremente sobre mil assuntos.&lt;br /&gt;Ao nosso lado, sentara-se um rapaz negro e uma jovem branca e pensei como os dois deviam enfrentar tantos preconceitos. As dificuldades não se comparavam às nossas! Enquanto a Susana observava a azáfama do lugar, flutuei longamente numa bruma de ideias em farrapos, tentando perceber as razões dela para escolher a vida que escolhera. Recordei o nosso passeio pelo Prado, as pinturas negras de Goya, que explicara com evidente conhecimento. E riu-se, quando brinquei, prefiro a Maja Despida! Foi no parque do Retiro, ao fim da tarde, que lhe perguntei porque razão continuava com aquele homem. Estávamos sentados num banco de jardim, junto a uma fonte que a luz descendente da tarde banhava com tons dourados, Susana encolheu os ombros, disse que era tudo complicado, que não era apenas o que parecia, que a pergunta era íntima e a resposta fazia parte da sua liberdade. E fiquei estupefacto a olhar para ela, quase escandalizado, como podia alguém classificar aquilo íntimo e ainda falar de liberdade? Ela interrompeu de imediato: Que sabes tu sobre isso?&lt;br /&gt;Era a nossa última noite em Madrid e penso ter compreendido, na curta discussão, a única que tivemos até agora, que sou uma espécie de capricho de Susana. Não tenho nenhuma outra importância na vida dela, além de acompanhante eventual em escapadelas de uma existência que terá as suas limitações.&lt;br /&gt;“Art Déco, mas sem grande qualidade”, disse Susana, trazendo-me de volta ao café de jazz.&lt;br /&gt;Ela não dissera mais do que isto, mas reagi como se tivesse ouvido: “não te rales, não leves as coisas tão a sério”. Tudo é transitório, em situações como esta. Os corpos que se movem no espaço, a alegria efémera e os ruídos dos copos nas mesas e dos talheres, das risadas, das conversas em murmúrio. Na correnteza de espelhos, estende-se um palco. Mas deste vasto teatro, resta pouco na memória, fracções apenas, pequenos rastos fugitivos.&lt;br /&gt;Depois, veio a música, e continuei a flutuar numa nuvem de ideias contraditórias, uma ventania de adivinhas e pensei com nitidez que a Susana era como uma caixa de segredos, daquelas feitas em finas peças de madeira, com código interno. Para ser acariciada, mas nunca verdadeiramente vencida. Um dia, teria de descobrir o código ou aceitar de vez a minha condição subalterna.&lt;br /&gt;A música levou-me para o interior de nova viagem. Tudo brilhava, tudo era excessivamente interessante. Não consigo descrever a emoção daquele quarteto de Jazz americano, Ben Sidran, ao piano, Bob Rockwell, ao saxofone. Foi uma noite magnífica, e fiquei todo aquele tempo a observar Susana, e a apreciar a forma como reagia às ocasionais palavras com que Sidran sublinhava a música, “não podem acreditar nas coisas que vi...” e eu estudava cada milímetro da cara dela e a textura dos cabelos, o brilho dos olhos, “podemos escolher os nossos próprios hipócritas”...&lt;br /&gt;...Confesso que apanhei a meio a explicação do músico sobre um poema que Garcia Lorca terá dado a uma amiga, antes de partir para Granada, em Julho de 1936, desconhecendo ainda porventura que seria a sua derradeira viagem. &lt;em&gt;Se me voy te quiero mas&lt;/em&gt;, dizia um verso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...E, agora, no aeroporto, enquanto nos damos as mãos pela última vez, ela envia-me à frente, para a praça de táxis, espero aqui um bocado, telefono-te eu, diz Susana, tem sacos de compras nas mãos, a mala com rodinhas. E acena-me, como quem ordena, vai para casa, e eu penso: &lt;em&gt;se me voy te quiero mas&lt;/em&gt;. E ouço a triste melodia do saxofone, quase um choro feliz, em balada de &lt;em&gt;blues&lt;/em&gt;... &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Imagem de Ben Sidran, actuando ao vivo&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116387967072220774?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116387967072220774/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116387967072220774' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116387967072220774'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116387967072220774'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/o-ritmo-dos-blues.html' title='O ritmo dos Blues'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116361741438037018</id><published>2006-11-15T19:03:00.000Z</published><updated>2006-11-15T19:08:30.473Z</updated><title type='text'>Buliçoso</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ao fim da tarde, as ruas de Madrid animam-se de novo. Milhares de pessoas percorrem as calçadas, transformando cada parte da cidade num muro de gente. Há habitantes no centro da cidade. Nestas ocasiões, explodem pormenores, os jovens alegres, uma janela partida, as portas dos cafés, uma esquina decrépita, a loja chinesa, o detalhe de arquitectura, um cartaz de protesto, o grupo animado que irrompe entre cotoveladas, o velho que bebe da garrafa, duas mulheres idosas de saco e braço dado, a rapariga vestida de negro e com botas, dois emigrantes índios que avançam em conversa morna, o motorista de autocarro que explica qualquer coisa a alguém, o cliente à porta da taberna de mãos nos bolsos...&lt;br /&gt;Percorremos o labirinto urbano, presos a um fio invisível que nos arrasta no mundo. Por vezes, Susana aponta para alguma bagatela do espectáculo e diz, Daniel, olha para ali, e eu vejo o mesmo que ela vê e isso representa que temos algo mais em comum, uma pequena ninharia, mas algo mais, e sinto o braço dela colado ao meu e dispersam-se as sombras, regressa a alegria pura, a agitação, uma espécie de eternidade feita de pequenas coisas, futilidade, bugigangas que brilham.&lt;br /&gt;Susana perdeu o artifício que a dominava. Sim, mudou nestes dias. Os traços da sua expressão são mais suaves, é tudo o que posso dizer, pois não consigo descrever a beleza do rosto de uma mulher, a simetria, a proporção exacta entre olhos, sobrancelhas, lábios e cabelos.&lt;br /&gt;Vejo que na nossa direcção avança um casal. Ele é um homem pequeno, talvez 60 anos, fato branco, dá o braço a uma jovem mais alta, vistosa e visivelmente meio-índia. Em Madrid, são frequentes casais assim, de espanhóis idosos acompanhados por mulheres sensuais. Dizem que essa mudança nos costumes ocorre em sociedades com forte imigração. Indiscretos, olhamos para trás quando o casal passa por nós. A cena parece patusca e Susana ri-se. Eu também ia dizer uma graçola, mas de súbito tomo consciência da estranheza do riso. Ela deve parecer-se com a índia, quando caminha ao lado do seu...&lt;br /&gt;Uma mancha começa a nublar a minha disposição. Porque se riu ela de uma cena onde se poderia ter revisto? Por um instante gélido, quase me parece que Susana age sempre com a mesma insensibilidade e alheamento em relação a si própria, como se pudesse separar-se do corpo, desligar-se dos sentidos e assim assumir o ser de outra pessoa. E, então, quando me envolvo em pensamentos sombrios, sinto de novo a pressão do seu braço preso ao meu, e a alegria buliçosa dela, no meio da confusão de gente que nos rodeia. Quem é esta mulher, penso, e a que ponto estou preso no seu feitiço?&lt;br /&gt;Olho mais uma vez para trás, e no caos dos corpos, ainda vejo de costas aquelas duas pessoas, o homem baixo, com fato branco, e a rapariga meio-índia, que se equilibra perigosamente nos saltos altos. E ninguém está interessado neles, ninguém desvia a vista, ninguém os procura, naquela anónima, imensa, multidão. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116361741438037018?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116361741438037018/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116361741438037018' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116361741438037018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116361741438037018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/bulioso.html' title='Buliçoso'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116360613316734868</id><published>2006-11-15T15:54:00.000Z</published><updated>2006-11-15T16:31:34.276Z</updated><title type='text'>À hora da sesta</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Decidimos seguir o ritmo da vida dos madrilenos. Almoçámos e regressámos ao hotel. Depois de fazermos amor, ficámos abraçados no silêncio do quarto. Primeiro, calados, como se a nossa vida se limitasse àquele delírio carnal. Depois conversámos, em vez de dormirmos a sesta. O passado de Susana intrigava-me e questionei-a sobre o que fizera na juventude, como vivera até eu a conhecer. Ela foi evasiva e deu a entender (com firmeza, mas sem quebrar o momento) que não desejava falar demasiado. “Tens de me aceitar como se não houvesse um passado na minha vida”, disse ela.&lt;br /&gt;No fundo (essa é a realidade) tenho de a aceitar como se ela não tivesse nem passado nem presente. Susana é um mistério esquivo, um mosaico que vou construindo, juntando peças desconexas. Contou-me que trabalhou como modelo, antes de conhecer o homem com quem vive agora e cujo nome não vou aqui escrever. Tentei perceber porque razão escolheu ser a amante de alguém muito mais velho, mas Susana foi interrompendo suavemente cada uma das minhas tentativas de a interrogar. No fim, não consigo ter uma imagem clara: terá sido atraída pelo poder, pela facilidade da sua nova vida? É uma forma de desilusão ou desistência de algo pior? Porque trocou a hipótese de ser uma jovem de classe média, estudante de história de arte, por um destino sem futuro? Não consegui arrancar-lhe um único lamento, uma frase que revelasse juízo moral sobre a sua prisão. A ponto de me parecer que era eu quem via aquilo como uma forma de cárcere. Era eu quem moralizava, quem a condenava intimamente. É a minha falta de imaginação que me impõe a imagem de uma Susana a escolher a via única: recém-casada com um colega de escola (casal de ingénuos) a fazer o contrato de promessa de compra e venda de um apartamento T2 no Cacém com vista para a fileira de prédios cinzentos em frente, apesar do peso da hipoteca, ela a pensar em fazer um filho, enquanto ele faz contas a quanto irá custar fechar a varanda com uma marquise e sonha com o seu novo carro de 1100 centímetros cúbicos.&lt;br /&gt;Não era essa Susana imaginária e banal que eu via ali, nua e concreta, sobre os lençóis de um quarto de hotel em Madrid. Desejei-a de novo, abracei-a. E pensei: perco o fôlego nesta maré obsessiva. Queria pedir-lhe perdão pelas dúvidas que tinha, mas apenas me deixei levar em carícias, sem perceber mais nada. Não tínhamos tempo suficiente para vivermos toda a nossa vida obscura nestes curtos dias luminosos e disfarçados. E assim, num abraço, flutuámos à deriva, glória demente, em busca da essência humana, esse segredo, o elemento separado de tudo o resto que nos unia. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116360613316734868?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116360613316734868/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116360613316734868' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116360613316734868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116360613316734868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/hora-da-sesta.html' title='À hora da sesta'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116353668449415972</id><published>2006-11-14T20:34:00.000Z</published><updated>2006-11-14T20:52:10.096Z</updated><title type='text'>Deambulação</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/1600/madrid.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/320/madrid.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Madrid espreguiça-se ao sol, magnífica. Talvez seja a presença da Susana, a meu lado, que me faça ver as ruas e gentes numa óptica mais favorável. Mas raramente vivi tal exaltação ou senti a importância da liberdade dos gestos.&lt;br /&gt;E, ao mesmo tempo, sou invadido por ideias sentimentais. Observo os prédios dos bairros velhos e, quando encontro cartazes de imobiliárias, perco-me em detalhes. Consigo imaginar-me a vender apartamentos no bairro das Letras. Navego longamente nestes jogos, a apreciar o estado das fachadas.&lt;br /&gt;De manhã, estivemos na Plaza Mayor e ali ficámos horas, extasiados com a harmonia e (estranhamente) com a caótica disposição das multidões que atravessam aquele espaço excessivo. Comemos tapas, íamos entrando nas diferentes tascas, numa deambulação alegre.&lt;br /&gt;“Podia viver aqui”, disse eu, quando subíamos Calle Moratin, no final da tarde, depois de termos passeado pelo Jardim Botânico.&lt;br /&gt;A princípio, a Susana não falou. Mas, depois de termos subido mais um terço da rua, encontrou um prédio e apontou para ele:&lt;br /&gt;“A nossa casa, ali”.&lt;br /&gt;Sorriu, mas nunca a vira sorrir daquela forma, num misto de melancolia suave e pensativo tumulto, mas com evidente prazer sonhador. Os olhos castanhos dela brilhavam, como se tivesse uma fina película de água a mais.&lt;br /&gt;“Não é uma casa grande, mas podemos viver bem”, continuou Susana, com um toque cruel na cara de anjo. “Todas as manhãs, vamos tomar o pequeno almoço naquele pequeno café”.&lt;br /&gt;Entrámos. O local era patusco: chamava-se “A Taberna dos Conspiradores”.&lt;br /&gt;“Cheio de história, repara nos detalhes, nas vigas de madeira e nos azulejos velhos”, disse ela. Susana apontava para uma fileira mais baça que ornamentava uma parede. Devo tê-la olhado com tal surpresa, que se viu obrigada a esclarecer aqueles conhecimentos: “Estudei dois anos de História de Arte, tenho obrigação de saber estas coisas”. Sorria ainda, coquete, com um toque de orgulho, talvez por me ter surpreendido, ou sem se aperceber do absurdo.&lt;br /&gt;Ainda por cima, aquele nome, “Taberna dos Conspiradores”. Era um sítio pequeno, atrofiado, onde nos escondíamos, como conjurados, inclinados em bancos baixos, que nos forçavam a falar próximos um do outro, em sussurros. De súbito, tomei consciência de que sabia muito pouco sobre a mulher que amava. Ela estava à minha frente, serena. Mas pareceu-me olhar para o interior de um abismo. Era como aquela cidade: podia percorrer as suas ruas como se acariciasse a pele de uma mulher, mas nunca compreenderia o seu passado. Mais que nunca, Susana não passava de um enigma, do qual conhecia apenas o corpo, ainda e sempre afastado do conteúdo impreciso da sua alma.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116353668449415972?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116353668449415972/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116353668449415972' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116353668449415972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116353668449415972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/deambulao.html' title='Deambulação'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116341575905349241</id><published>2006-11-13T11:01:00.000Z</published><updated>2006-11-13T11:07:19.580Z</updated><title type='text'>Clandestinos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O nosso encontro foi às sete e meia da manhã, no aeroporto, mas quando nos vimos um ao outro, apenas trocámos um breve sinal, quase imperceptível. A Susana arrastava pelo chão uma pequena mala preta, com rodas, vestia um casaco castanho, longo, que dava com a cor dos seus cabelos. Senti um súbito desejo, mas olhei em volta, enervado, a ver se alguém percebera a nossa relação. Concluímos o &lt;em&gt;check-in&lt;/em&gt; separados, com lugares separados. Para todos os efeitos, ela ia fazer compras a Madrid, sozinha.&lt;br /&gt;Por vezes, Susana olhava na minha direcção, mas fazia-o discretamente, como se observasse um passageiro qualquer, um desconhecido. Nem no avião nos atrevemos a falar um com o outro. Só o fizemos em Madrid, no anonimato do gigantesco terminal. E mesmo ali, não me atrevia a beijá-la. Tomámos a linha oito do metropolitano e conversámos, a tapar as lacunas do tempo que tínhamos perdido. Mas não lhe perguntei sobre "ele". Aliás, nunca pronuncio o nome "dele", não o quero pronunciar.&lt;br /&gt;Só nos beijámos quando chegámos à linha um e porque a estação parecia vazia. Foi um beijo longo e sôfrego. O nosso hotel ficava no centro, no Calle Atocha. Pouco elegante, mas pensámos que ali não haveria outros portugueses que nos pudessem reconhecer. Em Novembro, seria quase impossível que o nosso amor clandestino fosse descoberto. Por isso, entrámos no hotel como um casal. E, quando ficámos sozinhos no quarto, deixámos de pensar nas consequências. Agora, tínhamos todo o tempo só para nós.&lt;br /&gt;E eu queria perguntar-lhe, fica comigo, deixa-o, isto não é vida, mas não me atrevi. A Susana ria-se, estávamos numa praça próxima do hotel, ao fim da tarde, junto à estátua de Tirso de Molina, a observar a azáfama do bairro popular, a alegria confusa da gente, o emaranhado étnico. Sentíamos o cheiro da liberdade, a brisa e o ligeiro frio; um sol esplendoroso iluminava o topo dos edifícios velhos; e Susana apenas conseguia rir, com aquele seu riso descontraído e leve, fino como a água; ria-se da minha comoção, do que me estrangulava a garganta, e ela a pensar que eu brincava, sem saber o que queria verdadeiramente pronunciar, que o abandonasse, como se o cuspisse; "ele", o que nos tira tudo, o que sufoca este amor, o que nos esmaga com a sua presença distante. E ela ria-se da banalidade que eu dissera de facto, que nos tínhamos enganado no avião e aterrado na América do Sul; antes fosse, pensei, para estarmos suficientemente longe desta opressão, da vida que levamos.&lt;br /&gt;Madrid cantava, com os seus imensos ruídos de uma alegria constante. E o sol pintava com cores festivas e douradas as fachadas contentes dos prédios.&lt;br /&gt;Segurei a mão de Susana e ficámos ali um longo pedaço, como dois adolescentes, em silêncio, a ver passar o mundo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116341575905349241?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116341575905349241/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116341575905349241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116341575905349241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116341575905349241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/clandestinos.html' title='Clandestinos'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116301563949695382</id><published>2006-11-08T19:53:00.000Z</published><updated>2006-11-08T19:53:59.530Z</updated><title type='text'>Uma discussão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ontem, zanguei-me seriamente com o Jorge. Fiquei tão ofendida, que não lhe falei durante horas, até ele ficar aflito e tentar pedir desculpa. Quando se aproximou, a fazer beiços, quase a implorar, recusei ceder. Aí, ficou ele ofendido. Se fosse noutro dia, talvez tivesse capitulado, mas nunca me tinha sentido tão emocionada, intransigente.&lt;br /&gt;E, bem vistas as coisas, foi uma daquelas discussões fúteis que fazem parte da vida.&lt;br /&gt;(Quando fui viver com o Jorge, lembro-me de ter conversado com amigas e uma delas, mais velha, ou tinha casado mais cedo, já não me lembro bem, dizia que uma parte muito importante da minha vida de casada seria gerir as discussões, não deixar que elas ultrapassem os limites, aquele ponto de não retorno a partir do qual só existe um caminho, e é o caminho da ruptura; eu não acreditei nela, disse que comigo seria diferente, que não tencionava ter discussões com o meu marido, enfim, ele não era exactamente o meu marido, nunca casámos com papel e tudo...)&lt;br /&gt;Agora vejo a minha ingenuidade à época. E o que me espanta é que não passaram assim tantos anos. Três anos. E dizem que este é o primeiro obstáculo numa relação, ultrapassar os três primeiros anos, parece que a espécie está fabricada assim, para aguentar primeiro três anos (o tempo de fazer e amamentar o primeiro filho), depois sete anos (não sei porquê), depois quinze anos (que era uma eternidade para os nossos antepassados). Os prazos têm explicação certificada pela natureza humana e tudo se explica pela cablagem cerebral, acho que é a expressão usada pelos autores anglo-saxónicos.&lt;br /&gt;Não percebo como ainda consigo ser cínica em relação a isto, mas não há cablagem cerebral que me faça entender o Jorge.&lt;br /&gt;“És uma provinciana, uma saloia”, sentenciou ele. Estávamos a falar de um programa de televisão qualquer, sem motivo aparente. E ele saiu-se com aquela. Primeiro provinciana, o que sendo verdadeiro me incomodou. A palavra saloia é que me ofendeu. O Jorge disse aquilo sem provocação, a propósito de uma opinião minha que não merecia uma sentença daquelas. Ele gosta de comentar a minha suposta ignorância, patetice ou simplicidade. Sou rústica. O Jorge acredita nisso, mas ainda não o tinha afirmado. “És uma saloia!”&lt;br /&gt;Sou a parte ofendida e, apesar disso, tenho a obrigação de perdoar. É assim que ele funciona. Ele pode magoar e ser cruel e, de mim, espera-se que seja uma boa mulherzinha, paciente e tolerante, com a sua raiva devidamente contida e controlada.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116301563949695382?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116301563949695382/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116301563949695382' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116301563949695382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116301563949695382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/uma-discusso.html' title='Uma discussão'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116293101114095111</id><published>2006-11-07T20:22:00.000Z</published><updated>2006-11-07T20:23:31.156Z</updated><title type='text'>Chuva</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O Tiago veio buscar os miúdos para o fim-de-semana mas o David insistiu em ficar comigo. No fim, conseguimos não discutir, mas o meu ex-marido acha que eu estou a influenciar o rapaz e a impedi-lo de passar dois dias com ele. Fico numa situação difícil, mas tenho de proteger o David e respeitar a sua vontade, embora também seja importante que ele passe aqueles dois dias com o pai. Mas, no fundo, a escolha certa é a que o rapaz quiser fazer.&lt;br /&gt;A nossa vida está repleta de pequenas chantagens e temo que também eu não escape a essa manipulação das vontades desprotegidas. Bastam os meus silêncios, que o David interpreta como uma poderosa tristeza que ele deve contrariar com a sua vigilância. O meu filho faz-me ver, nesses sentimentos simples e ingénuos, que os seres humanos são capazes dos mais nobres gestos, pelo menos antes de perderem a inocência.&lt;br /&gt;Poderia sentir uma autêntica alegria, nestes momentos. Mas sou tomada por uma culpa que não consigo compreender inteiramente. Tudo se mistura: a maneira como me afastei do meu pai, que nunca consegui amar; o colapso do meu casamento com o Tiago, que ele nunca explicou devidamente, mas do qual me culpo também, mesmo sem saber a razão...&lt;br /&gt;Tudo deve ter a sua razão, suponho, apesar de nada no amor ser razoável. E de nada no desamor ser racional.&lt;br /&gt;O Tiago saiu de casa num dia de chuva, sem me dizer porquê. Deixou para trás dois filhos. Passaram dez anos e ainda não lhe consigo perdoar essa desistência. Mas terá sido uma desistência? E o que mais me surpreendeu, nessa noite terrível, era o facto de ele ter escolhido uma noite de chuva para sair de casa. Imaginei-o a molhar-se até aos ossos e senti por ele uma aflição. E pensei: voltará, é certo que voltará, porque chove assim...&lt;br /&gt;Regressa agora, de quinze em quinze dias, para ver os filhos que não o querem ver.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116293101114095111?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116293101114095111/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116293101114095111' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116293101114095111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116293101114095111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/chuva.html' title='Chuva'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116283704902071658</id><published>2006-11-06T18:16:00.000Z</published><updated>2006-11-13T13:45:22.323Z</updated><title type='text'>A noite de sábado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Beatriz trabalhou sábado e fui buscá-la à rádio, ainda não eram seis da tarde. Quando subi para a redacção, ela sorriu para mim ao ver-me, apresentou-me a dois ou três colegas, disse-me para esperar, que ainda tinha de ler um noticiário. E fiquei sentadinho, muito calado, a apreciar a azáfama dos jornalistas. Devia ser um dia de rotina, porque não houve aquela agitação que eu imaginava. Pelo contrário. São todos muitos jovens e gostei de que a Beatriz me tivesse apresentado sem ter vergonha de mim.&lt;br /&gt;Depois, fomos jantar a um restaurante barato e passeámos um bocado na baixa. Descemos até ao rio e ficámos na conversa, no fresquinho da brisa nocturna, a ver os barcos, as luzes que deslizavam na noite escura.&lt;br /&gt;Às onze, fomos para a festa de aniversário de um amigo dela, num velho grémio com vista para a praça do Rossio. O edifício tem uma disposição muito engraçada, com luzes vermelhas, grandes janelas sobre o casario, o dédalo de corredores velhos, em frente um antigo cinema que agora serve para peep show. Esta Lisboa possui a alma podre, mistura de decadência popular e de ingenuidade que encanta intelectuais.&lt;br /&gt;Na sala que usam para bar, há uma cadeira de barbeiro (juro que não estou a inventar); todos os dias, aquele espaço serve de barbearia, enquanto se joga bilhar nas grandes mesas ou se bebe uma cerveja, se jogam umas cartas. À noite, em festas como aquela, há bailes e circula-se no meio do barulho da música alta.&lt;br /&gt;Não impressionei os amigos da Beatriz. Como podia isso acontecer? Quando dizia que sou barbeiro, riam-se, a pensar que estava na brincadeira; depois, falavam um bocado comigo, não escondiam a surpresa, encolhiam os ombros; não tenho conversa de sala; nada sei de política, ou assim parece, porque não consigo dizer o que penso ser mais justo; não tenho graça, brilho ou elegância; não sou culto, embora saiba coisas. Sinto que me consideram um capricho dela, pois não pertencemos ao mesmo mundo e, embora digam o contrário, para eles tudo é também classe social.&lt;br /&gt;O Luís Naves estava na festa, ficámos surpreendidos de nos encontrarmos; conversámos bastante (eu não conhecia o aniversariante, a quem fui apresentado, o João, que também escreve neste blogue).&lt;br /&gt;Depois, já tarde, dancei com a Beatriz; e foi nessa altura que senti de novo que ela é de facto minha, embora apenas quando nos esquecemos de tudo o resto, de quem somos e o que fazemos; então, os nossos corpos ficaram mais próximos e a vida tornara-se mais simples: a rodopiar, feita de pele, de carne, com o olhar e a respiração à solta. E pensei, no meio das luzes turvas, que odeio ficar de fora deste seu lado fulgurante, que tenho ciúmes do seu brilho, como um planeta escuro pode ter do Sol incendiado em torno do qual orbita. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116283704902071658?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116283704902071658/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116283704902071658' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116283704902071658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116283704902071658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/noite-de-sbado.html' title='A noite de sábado'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116255983140880457</id><published>2006-11-03T13:14:00.000Z</published><updated>2006-11-03T13:21:20.630Z</updated><title type='text'>O mais belo filme</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/1600/expendable.0.gif"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/320/expendable.0.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu tenha a lágrima fácil e seja demasiado sentimental, mas de súbito estava envolvido naquela prisão de emoções e deixei-me conduzir pelas imagens. Chorei.&lt;br /&gt;Nunca gostei do título português deste filme. &lt;em&gt;Homens para Queimar&lt;/em&gt; é enganador e nada nos diz sobre os dramas ali encenados. &lt;em&gt;They Were Expendable&lt;/em&gt; devia ter sido traduzido por &lt;em&gt;Eram Dispensáveis&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Estavam a Mais&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;É o mais belo filme de John Ford, o que significa que este filme é um dos mais belos de sempre. Tem a poesia e a eternidade de um moderno mito de Orfeu e Eurídice.&lt;br /&gt;Passei-o na sessão de um ciclo sobre clássicos americanos, mas só estavam algumas pessoas na sala. No final, reparei que algumas também choravam. Mas já não se fazem objectos destes: as persianas são atravessadas por uma luz lunar que se reflecte na cara de um casal que pouco fala; os amantes mal se tocam, apenas se observam, de mãos dadas, pudicamente lado a lado; um discurso fúnebre dito em voz monótona e, na frase final, nas derradeiras palavras, a voz que vacila; o gato preto que dá sorte; o último telefonema interrompido; as constantes despedidas daqueles que ficam para trás. A terrível partida de avião, com os dois homens que cumprem sem esperança o seu dever de saírem para a morte certa.&lt;br /&gt;Este é um filme poético, o mais belo filme de guerra. Não se vê um único japonês e nas batalhas nunca há cobardia nem heroísmo.&lt;br /&gt;Este é um filme sobre a forma como a derrota pode tornar mais forte o derrotado. Os que ficam para trás não têm esperança e o seu destino será cruel. Todos o sabem. Por isso, não há exactamente despedidas. Os que vivem não olham para trás. Os que têm de morrer ficam entregues a si próprios, aos seus sonhos desfeitos, às hipóteses, à intimidade solitária onde o tempo se contrai, como água a perder-se entre os dedos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Imagem de They Were Expendable, de John Ford,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;com John Wayne, Donna Reed e Robert Montgomery&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116255983140880457?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116255983140880457/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116255983140880457' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116255983140880457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116255983140880457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/o-mais-belo-filme.html' title='O mais belo filme'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238598911224902</id><published>2006-11-01T12:58:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:59:49.113Z</updated><title type='text'>O Planeta no Limbo (conto de sci-fi)</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/planetas2.gif"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/planetas2.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E ali estava ele, o primeiro secretário em pessoa, o homem mais poderoso da civilização humana. E não havia mais nada da sua anterior prepotência, do poder ilimitado que incinerara vinte planetas. Não passava agora de um homem gordo e assustado, de cabeça calva, olhos pequenos, nódoas na capa, o bócio gordo a nadar no pescoço, o ar assustado de um animal encurralado. O comissário Boris inclinara-se, como era do protocolo, mas fizera-o com maior displicência. Manteve a cabeça inclinada pouco tempo, depois ergueu-se, e ao fazer esse gesto, viu as unhas sujas das mãos do primeiro-secretário e sentiu imensa repugnância. Enfrentou-o e o outro assustou-se. Então, o comissário Boris pensou: foi por isto que arrisquei tudo e me perdi?&lt;br /&gt;"Que notícias me traz, Boris?", perguntou o primeiro-secretário, sem resquícios da antiga firmeza. "Por favor, diga-me que a ralé já foi derrotada".&lt;br /&gt;"Pelo contrário", respondeu Boris, num tom artificialmente rígido. "Nós é que estamos perdidos!"&lt;br /&gt;O outro emitiu um guincho breve. Disse apenas que se recusava a acreditar, que haveria certamente uma reviravolta. Tinha legiões prontas para entrar em combate. Reservas, gritou, milhões de homens bem armados, novas tecnologias.&lt;br /&gt;"Os libertários triunfam por todo o lado", contrariou Boris.&lt;br /&gt;"Você é o chefe da polícia, faça alguma coisa!"&lt;br /&gt;"Já fiz, senhor! Já fiz demasiado! Matei cem milhões de pessoas".&lt;br /&gt;O lábio inferior do primeiro-secretário tremia. Irritou-se, gritou. Estava histérico:&lt;br /&gt;"Conversa de traidor!"&lt;br /&gt;Parou. Estava muito pálido. Respirava pesadamente. E, de repente, como se visse a prórpia morte, saiu pela longa cortina que tinha atrás da secretária. Na sala, tombara um silêncio de túmulo. Ninguém se mexeu durante largos segundos. E Boris, o único que se mantivera de pé, muito hirto, pensava, confusamente: e foi por isto que me perdi...&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238598911224902?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238598911224902/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238598911224902' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238598911224902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238598911224902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/o-planeta-no-limbo-conto-de-sci-fi.html' title='O Planeta no Limbo (conto de sci-fi)'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238586356827882</id><published>2006-11-01T12:57:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:57:43.570Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;"Escrevi três vezes o início do conto", expliquei a Luciano, enquanto ele examinava o manuscrito. "A cena inicial parece-me clara: o chefe da polícia de uma espécie de império do futuro enfrenta o imperador, que tem um título mais prosaico e burocrático, primeiro-secretário. Ele é, de facto, um ditador horrível, que mandou arrasar centenas de colónias humanas, escravizando milhões e eliminando todos os chamados libertários, que se juntaram para destruir esse regime..."&lt;br /&gt;Luciano lia e movia a cabeça, enquanto me ouvia. Parecia interessado no meu conto.&lt;br /&gt;"É interessante, esta passagem", disse o meu amigo. E leu: "A administração ocupava o interior oco de um enorme satélite. À superfície, dir-se-ia uma lua sem atmosfera e sem vida; mas debaixo do solo, havia um complexo de túneis e cidades, que só a loucura do ditador permitira construir. Centros de prazer, com milhares de concubinas; jardins artificiais, delícias, uma multidão de criados e de servos para satisfazer os mínimos caprichos de uma aristocracia corrupta, que vivia dentro daquela ilha do império, sem qualquer ligação com o exterior, com a vida horrível dos súbditos espalhados pelas estrelas".&lt;br /&gt;"Essa parte serve para explicar o contexto", expliquei.&lt;br /&gt;O Luciano poisou o manuscrito na secretária cheia de papéis e sorriu-me:&lt;br /&gt;"É um belo conto. Vamos publicá-lo", disse ele.&lt;br /&gt;"Mas ainda não o leste até ao fim".&lt;br /&gt;Luciano sorriu e foi nessa altura que percebi que se sentava desconfortavelmente, como se tivesse dores. Parecia ter envelhecido.&lt;br /&gt;"Há algum problema?", perguntei.&lt;br /&gt;"O conto parece-me óptimo", respondeu o editor. "Vamos publicá-lo no próximo número da minha revista de sci-fi, Mundos Incríveis. Verás que vai ser um sucesso".&lt;br /&gt;"Não é isso... Há algum problema, sentes-te bem?"&lt;br /&gt;"Lindamente", respondeu ele. E ficou a sorrir para mim, percebendo eu que ele mentira. Há momentos em que se percebe tudo para além das palavras.&lt;br /&gt;"Gosto do título, O Planeta no Limbo", disse o Luciano, para desviar a conversa. "É onde vivem as pessoas que já não querem ouvir a verdade. E, depois, esta história faz pensar: o poder é efémero, tal como a vida. E, sabes? Quando caminhamos muito tempo num sentido, já não podemos voltar para trás. É esse o sentido da mensagem de Boris, o chefe da polícia que matou cem milhões de pessoas por lealdade a um ditador que é afinal um homem sem qualquer mérito".&lt;br /&gt;Luciano tirou o óculos e lançou-os sobre a papelada acumulada na sua mesa. Parecia ter envelhecido anos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238586356827882?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238586356827882/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238586356827882' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238586356827882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238586356827882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/escrevi-trs-vezes-o-incio-do-conto.html' title=''/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238575925465019</id><published>2006-11-01T12:55:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:55:59.256Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Jorge deu-me um toque e desci da redacção. Ele estava em baixo à minha espera. Enviara-me uma cópia do seu conto de sci-fi e queria uma opinião sincera. Fomos até ao café na esquina do quarteirão. Perguntei-lhe como estava, o que andava a fazer, mas ele não quis entrar em grandes pormenores:&lt;br /&gt;"Estive agora com um amigo. Parece doente, deixou-me preocupado" afirmou, vagamente.&lt;br /&gt;O que se diz nestas situações? Uma banalidade e muda-se de conversa.&lt;br /&gt;"O teu conto é interessante, mas acho que podes melhorá-lo sem grande esforço".&lt;br /&gt;O Jorge mudou de expressão. Perdera o olhar distanciado. Ficara um pouco ansioso. Tive de suavizar a tentativa de crítica, pois percebera que não podia ser inteiramente sincero. O conto tinha grandes falhas, era evidente, escrita pouco trabalhada, demasiado improvisação, personagens relativamente esquemáticas. Apesar disso, tinha pontos interessantes, como as descrições de ambientes, e foi nessas partes que focalizei a minha crítica, para não magoar o Jorge, que é uma pessoa que respeito, pena que seja tão inseguro e talvez um pouco preguiçoso.&lt;br /&gt;"O Boris está bem esgalhado. Gostei da parte em que ele reflecte sobre os seus crimes. É forte, não mexas mais. Depois, gostei das descrições da cidade subterrânea, no fundo o bunker do primeiro-secretário, mas acho que podias explicar melhor a situação estratégica..."&lt;br /&gt;"Porquê", interrompeu Jorge, bastante ansioso, "Não se percebe que existe uma rebelião de Libertários e que uma frota se dirige para o satélite?"&lt;br /&gt;"Percebe-se lindamente", suavizei. "Mas acho que deves explicar melhor a motivação dos rebeldes e, sobretudo, a razão pela qual o primeiro-secretário os obriga a combater".&lt;br /&gt;"Eles desejam ser livres. A Civilização do primeiro-secretário é maléfica e corrupta. Morreram cem milhões".&lt;br /&gt;"Porquê?"&lt;br /&gt;"Percebo! Devo explicar melhor as razões do conflito..."&lt;br /&gt;"Fazes isso num parágrafo. Sei lá! Por exemplo, inventa um motivo económico poderoso ou melhor ainda, uma religião ou uma questão racial. Os do Governo são mutantes, por exemplo, geneticamente modificados. E acho que podes melhorar a escrita em certas passagens. Não há pressa na publicação, portanto, numa semana limpas aquilo de adjectivos, tornas algumas frases mais simples, etc."&lt;br /&gt;"Escrevi o início três vezes".&lt;br /&gt;"Estou a falar de passagens lá mais para a frente".&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238575925465019?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238575925465019/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238575925465019' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238575925465019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238575925465019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/o-jorge-deu-me-um-toque-e-desci-da.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238566321746940</id><published>2006-11-01T12:53:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:54:23.216Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O chefe da polícia, que passa o conto a meditar na crueldade e na inutilidade dos seus crimes, gosta de uma das concubinas do primeiro-secretário. Ora, o polícia recebe instruções para matar a concubina e assim impedir que ela seja capturada pelos libertários, que se aproximam do satélite oco, o Planeta no Limbo, onde vivem os do regime em queda. O Jorge explicou-me que vai acrescentar um facto importante: os do regime são geneticamente modificados, seres superiores, sobredotados. Por isso, estavam a exterminar os povos inferiores.&lt;br /&gt;O Jorge pediu-me uma opinião, mas eu sabia à partida que tinha de dizer o que ele queria ouvir. Li o conto e disse-lhe que gostei da história. Gostei bastante, genuinamente. Mas, sem o Jorge saber, li também o que ele verdadeiramente pensa, para além do que está escrito. Mas, sobre isso, não falei.&lt;br /&gt;Boris é ele e eu sou a concubina do primeiro-secretário. Está tudo muito pequeno e escondido, mas está lá.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238566321746940?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238566321746940/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238566321746940' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238566321746940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238566321746940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/o-chefe-da-polcia-que-passa-o-conto.html' title=''/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238558380108173</id><published>2006-11-01T12:51:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:53:03.803Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/naveespacial.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/naveespacial.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Janine dormia semi-nua, o corpo perfeito languidamente estendido na cama, que uma luminosidade etérea banhava com cores quentes. Boris inclinou-se e observou a superfície da pele da concubina, a serenidade do sono dela, a grácil disposição dos seios, cujos volumes inflamaram de novo a sua imaginação. Mas não havia mais saída para ele. Seria para sempre definido pelos seus crimes; que lhe interessava a circunstância de cometer mais um, o derradeiro?&lt;br /&gt;Na realidade, pensou, este seria o único assassinato que, de certa forma, protegeria a sua vítima de um cruel destino. Era, pois, uma libertação. Amara em silêncio Janine (amara-a ainda mais profundamente ao vê-la nos braços daquele ditador desprezível). Agora, devia matá-la. Tinha de cumprir a ordem, pois seria cruel não o fazer. Pegou no frasco de veneno e, ao deitar aquelas gotas nos doces lábios de Janine, sentiu a mesma exacta angústia que invadira cada fibra do seu corpo depois de dar a ordem para se bombardear Sirius IV. Vinte milhões de mortos passearam na sua memória, aos gritos.&lt;br /&gt;O corpo divino da concubina estremeceu levemente, uma visão que, para Boris, era subitamente a imagem do inferno, a superfície de um planeta inteiro a arder no terror das chamas.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238558380108173?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238558380108173/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238558380108173' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238558380108173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238558380108173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/janine-dormia-semi-nua-o-corpo.html' title=''/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116238537440568427</id><published>2006-11-01T12:47:00.000Z</published><updated>2006-11-01T12:49:34.420Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/planetas1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/planetas1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um texto nunca se termina, mas rescrevi o final e decidi que não farei novas alterações. Só mais tarde vemos os defeitos, a palavra que não se ajusta, a frase demasiado pomposa e ridícula. Mas há um momento em que devemos escrever a palavra fim.&lt;br /&gt;No fundo, este é um conto sobre um homem que fez muitas coisas erradas na sua vida e que, de repente, percebe a monstruosidade dos erros que cometeu. Não foi apenas uma existência inútil, mas destrutiva e horrível.&lt;br /&gt;Em todos nós habita o mal e Boris é apenas um homem comum (nem sequer é geneticamente melhorado) que anseia pela imortalidade (como cada ser humano faz). Não existe saída do seu labirinto. Não há qualquer solução. Sem desespero, Boris opta pela morte segundo as suas próprias regras e, no final, reencontra-se com o eterno, numa redenção de instantes. O satélite não possui atmosfera. Ele sai da cidade subterrânea apenas com um fato espacial e um tanque de oxigénio, que se gasta devagar. Caminha na superfície, embora não haja caminho marcado na poeira daquela lua perdida. Em cima, aquém da miríade de estrelas, as luzes das naves dos libertários, prontas para o assalto final.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Foi por isto que destruí a minha alma eterna? Por nada? Boris olhou para cima e viu a constelação da frota inimiga, que pairava sobre o planeta no limbo, como se fosse uma nuvem de poeira. Depois, o chefe da polícia deitou-se ao lado de uma rocha. E pensou mais uma vez na linha muito fina que separa os homens dos deuses. Depois, num gesto brusco, o único gesto brusco que fizera nesse último dia, retirou o tubo de oxigénio e tentou mergulhar num sono definitivo. Então, é só isto? perguntou-se, sem sentir frio ou calor. E, enquanto uma imensa serenidade se aproximava, pela primeira vez começou a acalmar a dor da sua culpa.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116238537440568427?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116238537440568427/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116238537440568427' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238537440568427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116238537440568427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/11/um-texto-nunca-se-termina-mas-rescrevi.html' title=''/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116233609925324986</id><published>2006-10-31T23:05:00.000Z</published><updated>2006-10-31T23:08:19.270Z</updated><title type='text'>Ciúme</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/1600/modigliani2.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/320/modigliani2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os homens sempre foram uma desilusão na minha vida. Sei isso há muito tempo, mas nunca o afirmei com esta clareza. O Jorge é uma desilusão!&lt;br /&gt;Na minha vida, fiz sexo com quatro homens, mas o Jorge só sabe de um e tem grandes ciúmes por ele, embora desconheça o essencial, pois nunca lhe disse a verdade. O meu marido tem ciúmes por uma relação que eu mantive brevemente, muito antes dele aparecer na minha vida! Não sei se a ideia de eu estar nos braços de outro o excita ou se isso lhe é insuportável. Nunca percebi: por um lado, há um brilhozinho no olhar quando me obriga a falar nisso; por outro, sinto nele uma repulsa. Questiona-me sobre este meu primeiro amante, como foi e o que senti por ele na altura e, depois, o interrogatório torna-se mais incómodo, começa a ser insistente e até um bocadinho penoso. O Jorge fica irritado e eu não consigo explicar-lhe que não senti nada de especial, que não me lembro de nada de especial. É uma memória inócua e mecânica. O sexo em si, doeu-me, mas ele não compreende! Uma vez disse-lhe um pedaço da verdade: o tipo era um estúpido, o que era a verdade pura, fui para a cama com ele por não perceber até que ponto o tipo era estúpido, mas o Jorge não acreditou. E levou a mal a minha sinceridade e só se acalmou quando comecei a inventar aspectos eróticos que não eram autênticos.&lt;br /&gt;No outro dia, assustei-me a sério. Tentei lembrar-me de pormenores do meu primeiro encontro com Jorge e não consegui fixar grande coisa. Só me lembro de que o meu marido me pareceu então muito mais agradável do que é na realidade. Pensei que ele tinha um enorme sentido de humor e que devia ser uma pessoa muito inteligente, mas agora acho apenas que é um preguiçoso, que não tem ambição, que não quer responsabilidades, que é mau na cama, egoísta e frágil. Muito abaixo do seu talento potencial, algo de imperdoável. Na altura, lembro-me de o ter visto como uma pessoa forte, agora sei que se gasta em inutilidades, na insegurança de um nevoeiro.&lt;br /&gt;Como é que uma mulher se pode enganar tanto? Como explicar esta cegueira? Por que é não vemos o óbvio, que esteve lá sempre?&lt;br /&gt;No passado, achei que o facto de Jorge sentir ciúmes por uma ligação que tive antes dele (desconhece as outras três, felizmente) era, de alguma forma, um sinal de amor. Agora, sei que isso não passa de uma manifestação de orgulho, um dos piores pecados mortais. Sinto-me objecto da sua propriedade, que ele molda à sua imagem, onde ele apaga todos os rastos da anterior posse. O Jorge jamais pensa que, tal como ele, também eu procuro, também eu sonho, também eu amo, e não será em exclusivo. E o meu corpo pede-me que tenha um filho, que é algo que (sem que eu possa compreender) o Jorge continua a recusar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Desenho de Amedeo Modigliani&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116233609925324986?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116233609925324986/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116233609925324986' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116233609925324986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116233609925324986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/cime.html' title='Ciúme'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116221196136882158</id><published>2006-10-30T12:35:00.000Z</published><updated>2006-10-30T12:39:21.386Z</updated><title type='text'>Pantanal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez perdemos no último minuto! De súbito, quando vi aquele colapso defensivo, senti uma ira tremenda. Apeteceu-me quebrar o copo que tinha na mão, sobretudo se isso me provocasse dor e me fizesse jorrar sangue. Não sei de onde vem esta fúria, este estado de alma que me tornaria facilmente num cão raivoso.&lt;br /&gt;Assustou-me aquele tremor, a indignação e cólera, o desejo de bater em alguém.&lt;br /&gt;Enquanto o locutor da televisão festejava o golo dos outros, eu e os meus amigos ficámos estupefactos. Porque razão perdíamos mais uma vez no derradeiro minuto? Como explicar a fragilidade? E virámo-nos contra o locutor. Parece bem feliz, o sacana! E insultei-o ali, impotente, a olhar para um ecrã que se transformava, assumindo cores sanguíneas do nada, pois que só havia ali formas indistintas, um borrão: e em rumor de fundo a demência que se apossava de mim, sem que eu pudesse travá-la.&lt;br /&gt;Que ódio era aquele?&lt;br /&gt;Sem luz, não há sombras; sem conhecimento da dor não existe conforto; sem sentir excessos do mal, não é possível amar; sem ter vivido a asfixia do calor não se reconhece a bondade do frio; e tudo isto é válido na lógica contrária.&lt;br /&gt;A geografia das almas tem destes territórios ambíguos: no deserto, não existe transição entre frio e calor; e que dizer da separação entre noite e dia?&lt;br /&gt;Que monstros tenho dentro de mim para odiar tanto, apenas por causa de uma derrota que vivi por um instante como se fosse minha, que me dominou na sua completa catástrofe, como se eu fosse terra frágil e vulnerável, inundada de súbito (arrasada) por um tsunami, uma onda gigantesca feita da simples força da água.&lt;br /&gt;Quando saí do café do Adriano (a noite estava tépida, ameaçadora) consegui acalmar o meu incompreensível azedume. Percebi que marchava na rua vazia como se corresse. O coração parecia aos saltos. Dei um pontapé num caixote do lixo e fiz isso com tal força, que ele se moveu, apesar do peso. Só então acalmei, uma réstia de dor pela violência do choque, o meu medo que amolecia. E, de súbito, tudo se tornava claro: a confusa mediocridade do que me rodeava, o avassalador desejo de amar Beatriz, o céu viscoso e a luz meio oculta dos candeeiros públicos; um ébrio que passou, cambaleando a cantar, imerso nas suas dúvidas; e o eco da alegria de uns e da derrota dos outros.&lt;br /&gt;Tudo isto se fundiu no pântano dos meus pensamentos, numa única ideia: tenho de mudar de vida, antes que seja atingido por esta morte em lume brando...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116221196136882158?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116221196136882158/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116221196136882158' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116221196136882158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116221196136882158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/pantanal.html' title='Pantanal'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196152702519729</id><published>2006-10-27T16:04:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T16:05:27.030+01:00</updated><title type='text'>Encontro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço impressões como se fossem rastos de música, flutuando na atmosfera. &lt;em&gt;La Cathédral Engloutie&lt;/em&gt;, ritmos pesados e severos, depois crescendo numa intensa imagem de poder e dor, de pesados arcos de pedra e torres imensas, envoltas numa aquosa neblina, cores frias; a Debussy segue-se &lt;em&gt;Lakmé&lt;/em&gt;, de Delibes, as vozes esvoaçando, leves e livres, ondulantes, explodem cores na água, pássaros. Os ecos deslizam na minha imaginação.&lt;br /&gt;Carrego no botão da pausa. O MP3 desliga-se. Agora, do banco de jardim ouço o rumor do trânsito. A manhã foi invadida pelo sol, mas o ar está fresco.&lt;br /&gt;Observar as pessoas que descem a rua, rente aos prédios em frente, torna-se um exercício mais próximo da humanidade, sem a música.&lt;br /&gt;A Teresa telefonou-me ontem e disse-me que queria encontrar-se comigo. Combinámos aqui. Enquanto esperava (cheguei vinte minutos mais cedo), ouvi excertos de impressionistas e tentei abstrair-me do que significa o encontro.&lt;br /&gt;Vou dizer-lhe: &lt;em&gt;lembras-te ainda da casa de pescadores, que alugámos no fim-de-semana e das luzes dos barcos em frente, a dançarem no mar tão escuro?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Vem um grupo de pessoas a descer a rua. Uma das mulheres pode ser ela... (tenho daqui uma magnífica visão da rua, penso que Teresa virá por ali, vou reconhecê-la a grande distância, não a vejo há vinte anos; foi o Daniel que a reencontrou por acaso, no final de Agosto, e teve a ideia de escrevermos este blogue em conjunto, mas ainda não a vi desde que começámos o labirinto). Não, não é ela. Podia ser, mas não é...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A nudez de Teresa, aquele fim-de-semana mágico, o nosso paraíso açoriano...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Vejo-a! Só pode ser ela. Sinto uma súbita comoção, não pensei que isto me acontecesse: tenho as mãos suadas, devo estar pálido.&lt;br /&gt;Teresa usa um vestido verde e um blusão que lhe esconde o corpo, não parece ter mudado, sempre foi friorenta, vê-me, acena-me com alegria, aproxima-se, abraçamo-nos, não me recordava dela tão alta, ou sou eu que fiquei mais baixo ainda, Quanto tempo, diz ela, e devemos estar ambos extremamente pálidos, sem sabermos como continuar a conversa, que erro enorme ter aceite este encontro, vista mais de perto envelheceu, rugas em torno dos olhos, que eu lembrava como tendo mais brilho, alguns cabelos brancos, certa tristeza acumulada, à qual não sou alheio...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196152702519729?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196152702519729/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196152702519729' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196152702519729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196152702519729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/encontro.html' title='Encontro'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196137574179185</id><published>2006-10-27T16:02:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T16:02:55.743+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Jorge foi uma desilusão. Ao vê-lo, logo me arrependi de ter inventado aquele encontro. Engordou muito, nestes vinte anos. Está um bocadinho careca e trazia a barba mal feita, o que lhe dava ar desmazelado. Os olhos verdes perderam o fulgor que tanto amei. Abraçámo-nos, mas o abraço não se prolongou. Pareceu de repente que os dois corpos se retraíam ao mesmo tempo, num embaraço, num pudor que me pareceu inteiramente natural. Afinal, não eram os mesmos corpos que se tinham amado, porque o tempo não perdoa, desculpem-me o lugar comum, porque o tempo é um juiz de uma crueldade desumana, e aquilo que já fomos acaba, o que habitámos desaparece, passou a eternidade sobre aqueles dois outros corpos que se amaram, para nós não há mais do que este impossível encontro, e a amizade só será possível se reinventar o passado.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196137574179185?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196137574179185/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196137574179185' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196137574179185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196137574179185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/jorge-foi-uma-desiluso.html' title=''/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196123338877978</id><published>2006-10-27T16:00:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T16:01:31.913+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;“Lembras-te daquela casinha de pescadores?”&lt;br /&gt;“Como podia esquecer”, sorriu ela, talvez a pensar noutra coisa.&lt;br /&gt;Teresa pedira chá e escolhemos uma mesa junto à vidraça. O café estava tranquilo, mas o empregado ligou a máquina de café e ela começou a assobiar de forma estridente e, durante meio minuto, não podíamos ouvir o que o outro dizia.&lt;br /&gt;“E o que fizeste neste tempo todo?”, perguntou Teresa.&lt;br /&gt;Balbuciei uma resposta. Escondi-lhe que nunca fora feliz, sem entrar em nenhum pormenor das minhas infelicidades. Azares da vida, suponho, culpa minha, para que não pensasse que isso se devia a não termos escolhido (a não ter escolhido) continuar com ela. Sempre achei que a minha procura de liberdade (desculpas!) foi uma cobardia extrema. E paguei isso, ou estava escrito que seria assim, azares, meandros, rodeios e reviravoltas. Falhei tudo o que fiz, sou um fracassado a sério, Teresa, não sorrias, pois o que penso é mesmo a sério.&lt;br /&gt;“E tu, que fizeste?”&lt;br /&gt;Ela balbuciou uma resposta, como te percebo, Teresa, como se fosse possível contar os acontecimentos de vinte anos, essa vida paralela que foi só a tua, com todas as suas buscas no labirinto, a imensa procura.&lt;br /&gt;A cerveja estava apenas tépida, um nojo, bebi-a sem agrado, mal ouvindo o que Teresa dizia...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196123338877978?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196123338877978/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196123338877978' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196123338877978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196123338877978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/lembras-te-daquela-casinha-de.html' title=''/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196116313501345</id><published>2006-10-27T15:59:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T15:59:23.136+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Expliquei o que fizera naqueles vinte anos, mas não sabia por onde começar. Tropecei nas palavras e senti-me oca. O café estava praticamente vazio e reparei no empregado, que nos olhava, por não ter mais nada que fazer. Devia parecer-lhe que éramos um casal de meia-idade e que talvez discutíssemos. De repente, percebi que não tinha palavras para contar todos os acontecimentos da minha vida e desisti de o fazer, menti nas generalidades, que estava tudo bem, que vivia bem, que era feliz, à minha maneira. Depois, senti repugnância pela maneira como ele bebeu a cerveja. Aquilo embaraçou-me. Como Jorge mudara!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196116313501345?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196116313501345/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196116313501345' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196116313501345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196116313501345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/expliquei-o-que-fizera-naqueles-vinte.html' title=''/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196109823099689</id><published>2006-10-27T15:57:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T15:58:18.233+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Falámos quase meia hora e, depois, era preciso terminar com aquela tortura. Tinha compromissos, despedi-me, combinámos encontrar-nos mais vezes, talvez um almoço, em breve o almoço, para lembrarmos os bons velhos tempos, rimos os dois, talvez com as mesmas memórias do nosso amor açoriano. De repente, só queria beijá-la e abraçá-la muito e desejei que a minha vida tivesse sido diferente e quase chorei pela pessoa que não sou... Adeus Teresa, até breve, e coloquei os &lt;em&gt;phones&lt;/em&gt;, liguei o MP3 e desci pela rua, a ouvir o segundo andamento do concerto para piano de Ravel, o da melancolia.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196109823099689?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196109823099689/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196109823099689' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196109823099689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196109823099689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/falmos-quase-meia-hora-e-depois-era.html' title=''/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116196102105892391</id><published>2006-10-27T15:56:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T15:57:01.073+01:00</updated><title type='text'>Encontro (último andamento)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Olhou para o relógio, inventou que tinha um compromisso, quase não deu tempo para se despedir. Adeus, Teresa, disse, Adeus Jorge, respondi, e ele ficou parado, mas era como se olhasse para um ponto muito além de mim, trespassando-me com esse olhar. Senti um arrepio. Voltaremos a encontrar-nos, porque agora só a amizade é possível. Levarei este mesmo vestido verde e, da próxima vez, Jorge vai reparar nele.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116196102105892391?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116196102105892391/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116196102105892391' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196102105892391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116196102105892391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/encontro-ltimo-andamento.html' title='Encontro (último andamento)'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116180082685163696</id><published>2006-10-25T19:24:00.000+01:00</published><updated>2006-10-25T19:27:06.863+01:00</updated><title type='text'>O lento passar da tarde</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A tarde ficara suave, após tantos dias cinzentos. Pensara durante quatro horas naquele problema jurídico, a compor possibilidades do texto do parecer. Então, o cansaço fez-me sentir que precisava de uma fuga, de gozar aqueles raios de sol que espreitavam pelo topo dos severos edifícios. Mas não o fiz. Onde iria? A rua do escritório é demasiado triste, na monótona repetição de fachadas duras.&lt;br /&gt;Por isso, não cheguei a sair da sala. Instalara-se um quase silêncio; digo assim, ia escrever um profundo silêncio, mas isso não existe e, se existisse, seria assustador senti-lo. Felizmente, há outros ruídos que se mantêm, mesmo após se apagarem os traços daqueles que nos incomodavam. A luz era mais intensa e, além da janela, via os telhados dos prédios velhos em frente ao escritório: uma escada das traseiras, a roupa estendida numa cozinha virada para a sombra, o gato a adormecer junto ao vidro, mas ainda a olhar para fora, em preguiçoso meio-alerta.&lt;br /&gt;Foi a luminosidade que acendeu a minha memória. Não houve um processo súbito, antes a lenta transição, como o chegar da noite. E não imagino quanto tempo durou aquele sonho vago.&lt;br /&gt;Lembrei-me dos Açores de há vinte anos. Eu tinha o pequeno renault e parei o carro ao ver o Jorge, que vinha a descer a rua. Não era um rapaz bonito, tirando os olhos, mas agradara-me a sua jovialidade, a maneira de falar comigo, a imagem dele de não ligar às convenções. Nem sei porque razão o convidei a vir naquele passeio. Percebera que ele não tinha ocupação, estava longe do quartel, em roupa civil. Conhecera-o dias antes, na discoteca.&lt;br /&gt;Jorge ficou surpreendido, mas acompanhou-me. Lembro-me de tudo com nitidez, de cada pormenor, o tempo que fazia, a cor do mar, a força do vento; e a minha solidão tornara Jorge ainda mais agradável a meus olhos, a ponto de me parecer que tinha a meu lado uma mente superior. O fulgor do dia era uma torrente que me arrastava e senti, nessas horas, como se um vulcão se agitasse, tremendo, com o seu poder e calor a envolverem todas as minhas percepções.&lt;br /&gt;Certa vez, a ilha foi atingida pelas nuvens periféricas de uma tempestade tropical, com ventos quase ciclónicos e uma espécie de aperto na garganta, feito pelo ar caótico. Mas até essa tempestade passou. Os ventos amainaram e o céu abriu-se a um sol glorioso. Havia estragos, árvores derrubadas, restos de telhas no chão, vidros quebrados. E assim foi aquele amor, jamais uma paixão que durasse, mas uma tempestade breve, que deixou a marca de feridas apenas passageiras.&lt;br /&gt;E, ao pensar nisto, acordei da deambulação e percebi que regressara ao silêncio do escritório. Alguém passava no corredor em frente à minha sala. Vi passar uma sombra através do vidro fosco e ouvi sapatos de mulher no chão frio. O som daquela pessoa reduziu-se, enquanto ela caminhava para o elevador, ao fundo. Soaram campainhas. Regressou o quase silêncio. E, então, quebrado o fio da memória, ficou apenas o lento passar da tarde. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116180082685163696?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116180082685163696/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116180082685163696' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116180082685163696'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116180082685163696'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/o-lento-passar-da-tarde.html' title='O lento passar da tarde'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116179019296817205</id><published>2006-10-25T16:28:00.000+01:00</published><updated>2006-10-25T16:29:52.983+01:00</updated><title type='text'>A poesia do western</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/ford4.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/ford4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O cinema está a mudar depressa, a tentar acompanhar o gosto das audiências. Confesso que muitas vezes não entendo esse gosto tão volúvel. Filmes terrivelmente maus transformam-se em êxitos, como se as pessoas já não procurassem boas histórias. Hollywood não passa de uma fábrica, onde a criatividade visual e tecnológica é evidente, mas se perdeu a inocência e o sentido narrativo. A ditadura do mínimo denominador comum impôs o fim de algumas espécies. Neste caso, tende a desaparecer o cinema de género, muito especialmente o &lt;em&gt;western&lt;/em&gt;, que se transformou numa vaga reminiscência da época clássica americana, para ver na televisão ou em salas como aquela onde trabalho e que resiste, passando ainda filmes antigos.&lt;br /&gt;Sempre adorei o &lt;em&gt;western&lt;/em&gt;. Encantam-me os seus lugares comuns, de gestos e duelos ao sol, de cavalgadas e salvamentos; mas adoro sobretudo os grandes espaços e as virtudes das personagens, o mundo a preto e branco e a luminosidade ameaçadora, os cenários grandiosos, desfiladeiros e desertos, o ser humano tornado mais pequeno. E aquela poupança de palavras, que o torna tão pouco literário.&lt;br /&gt;O gosto mudou e isso torna impossível habitar de novo estes palcos. Perderam-se também as metáforas do género: a dos homens inquebráveis, a do território comanche. Tento explicar: nos &lt;em&gt;western&lt;/em&gt; não há heróis ou anti-heróis, mas fortes e fracos, e nós vivemos num tempo onde não é desejável tal distinção. A globalização trouxe a universal mediania, ou pelo menos essa é a ideia principal da contemporaneidade, que detesta elites e está obcecada com o equilíbrio do sistema, obrigando a compensar os deserdados. O território comanche é mais difícil de explicar: trata-se do perigo que rodeia cada espaço individual. A ideia é de que viver implica o conhecimento das fronteiras e, para lá delas, fica o território desconhecido, repleto de ameaças. Este só pode ser conquistado pelos audazes. É esta visão ingénua do mundo que perdemos, talvez para sempre. Até nos sonhos a perdemos.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116179019296817205?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116179019296817205/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116179019296817205' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116179019296817205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116179019296817205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/poesia-do-western.html' title='A poesia do western'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116160840564051040</id><published>2006-10-23T13:57:00.000+01:00</published><updated>2006-10-23T18:38:08.866+01:00</updated><title type='text'>Entra Beatriz</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/1600/cortina.gif"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/320/cortina.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Conheci a Beatriz há três meses, numa festa para a qual fomos convidados por pessoas diferentes. O apartamento era pequeno e estava muita gente; por isso, não foi possível conversarmos. Pensei que ela não se interessara por mim: já tenho mais de 40 anos e quando disse que trabalhava numa barbearia pareceu incrédula, até se riu ligeiramente, como se eu estivesse a dizer uma piada. A Beatriz tem pouco mais de 30 anos e acabou de sair de uma relação que deu para o torto, pelo menos foi o que me explicou o meu amigo. Precisa de espairecer, de conhecer novas pessoas, disse ele. As mulheres feridas por desgostos de amor cumprem aquele ditado do gato escaldado. Evitam envolver-se com desconhecidos e não gostam de abordagens óbvias.&lt;br /&gt;Fiquei com a impressão de que não me achara ao nível dela. Pairou nessa atitude um ligeiro sentimento de superioridade que julgo ser sempre uma máscara defensiva. Mas pode ter sido também uma interpretação minha, e errada, com origem na insegurança que carrego. A Beatriz é jornalista de rádio, dada a leituras, e é actriz num grupo amador de teatro. Eu não sabia destes pormenores, excepto a profissão, e pensei (no dia em que a conheci) que fosse uma jornalista famosa, que não é.&lt;br /&gt;Encontrámo-nos por acaso duas semanas mais tarde, na estação de comboios. Era a minha folga, ia ao cinema, ela estava atrasada para o trabalho; mas conversámos sobre banalidades, sentados em frente um ao outro. Em Lisboa, ela seguiu para o metro, eu prossegui a pé. No final, despedimo-nos com dois beijos na face, foi só isso.&lt;br /&gt;Após esse segundo encontro, percebi que ela não me tinha visto como um tipo inferior. Nem me lembro do que dissemos: acho que me falou do trabalho na rádio e eu disse que tinha uma voz muito bonita; Beatriz riu-se, os seus olhos brilharam, não sei o que estava a ver em mim. No resto da viagem, sorriu todo o tempo, como só as mulheres sabem fazer.&lt;br /&gt;Mas separámo-nos mais uma vez, e podia ser para sempre, que nada se teria perturbado no universo. Pergunto-me muitas vezes se existe destino ou casualidade e acho que acredito que a nossa vida seja ordenada de acordo com certos momentos destinados e isso implica que também as insignificâncias façam parte desse rosário: uma determinada sequência de acontecimentos elimina a possibilidade de ocorrerem todas as outras sequências possíveis, que são um número infinito delas. (Se eu não for atropelado, continuo a viver, mas posso fazê-lo de muitas maneiras). No fundo, nunca há alternativa, apenas a sequência que, de facto, ocorre. Apenas uma.&lt;br /&gt;Quando nos separámos, a Beatriz deu-me a morada do grupo de teatro. Fica num bairro de Lisboa, um pouco afastado, sem transportes, mas na semana passada lá me aventurei. Apanhei um autocarro e cheguei lá um pouco antes do início do ensaio. Perguntei pela Beatriz e disseram-me que ela ainda não tinha aparecido. Fiquei sentado a ver a actividade e, depois, veio a Beatriz, que durante algum tempo não reparou na minha presença. Até que um colega actor lhe disse. E ela sentou-se ao pé de mim, muito feliz por me ver ali, mas feliz de forma simples, sem exuberância, apenas num estado de alegria.&lt;br /&gt;Quando acabou o ensaio, Beatriz deu-me boleia de carro e deixou-me à porta de casa. "Tens de vir para o grupo", disse. E eu respondi: "Sou demasiado trapalhão para actor, mas gostava de arranjar cenários e transportar caixotes". Ela ria-se muito. E separámo-nos de novo, porque ambos sabíamos que é preciso respeitar a sequência certa dos acontecimentos e que ainda não era o momento para passarmos juntos a nossa primeira noite. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116160840564051040?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116160840564051040/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116160840564051040' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116160840564051040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116160840564051040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/entra-beatriz.html' title='Entra Beatriz'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152961108995004</id><published>2006-10-22T16:04:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T16:16:00.716+01:00</updated><title type='text'>Os amantes de Budapeste</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/1600/revolucao%2056.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/200/revolucao%2056.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Luís Naves fez um pequeno gesto com a mão, a apontar a cadeira ao lado da secretária dele, que estava muito desarrumada.&lt;br /&gt;"A minha colega não vem hoje, podes sentar-te aí", disse ele.&lt;br /&gt;"A tua redacção é engraçada", exclamei (ainda estava pouco à vontade).&lt;br /&gt;"Hoje é domingo, está pouca gente, podemos conversar com calma", explicou ele.&lt;br /&gt;"Li o teu artigo sobre a comemoração dos 50 anos da revolução de 1956, na Hungria, e lembrei-me de te falar destes cadernos", disse eu.&lt;br /&gt;O Naves pegou no volume e abriu o primeiro. Ficou subitamente interessado.&lt;br /&gt;"Isto está escrito em húngaro..."&lt;br /&gt;"Pois, tu falas a língua, não é?"&lt;br /&gt;"Não falo quase nada e certamente não percebo isto".&lt;br /&gt;"A tua mulher é que percebe, não é?"&lt;br /&gt;Ele fez que sim com a cabeça. Abriu outros cadernos. Um escrito em inglês, outros em português. Todos com a mesma letra muito cuidada.&lt;br /&gt;E comecei a explicar-lhe:&lt;br /&gt;"Em 91, trabalhei numa imobiliária que era gerida por um velhote inglês, chamado Gardener. Enfim, pensava eu que ele era inglês e que se chamava Gardener. Um tipo porreiríssimo, mas um pouco misterioso, calado, com um olhar que nos punha pouco à vontade. Fomos ficando amigos. Eu não era visita de casa, nem nada do género, mas ele às vezes contava-me histórias da sua vida; vivia sozinho e tinha muitos contactos que sempre achei estranhos, uns ingleses com óptimo aspecto, todos velhos, mas bem vestidos e com gestos rígidos. Agora, percebo que eram antigos militares. O Gardener era uma figura importante na comunidade inglesa do Estoril e vendia casas com facilidade. Mas havia mais qualquer coisa. Só soube quase no fim. Uma vez, estávamos sozinhos no escritório e ele começou a falar comigo, a abrir-se, sabes como é, então disse-me que não era inglês coisíssima nenhuma, que tinha nascido na Hungria e fugido de lá em 1956. O homem estava a morrer e contou-me algumas coisas, como se já não tivesse tempo. O nome dele era Farkas...&lt;br /&gt;"Significa lobo, sabias?", interrompeu o Luís Naves.&lt;br /&gt;"Não sabia! Vou abreviar: Pois este Farkas, ou Stephen, como eu o chamava..."&lt;br /&gt;"... Stephen, de István...!"&lt;br /&gt;"Pois bem, ele contou-me que tinha trabalhado como agente britânico durante muitos anos. Sabes? No tempo da Guerra Fria, sobretudo nos anos 70, Portugal era um local adequado para certas tarefas. Eu penso que lhe davam informação em húngaro para ele analisar, mas talvez fosse mesmo um agente a sério, durante a revolução, e tudo. Enfim, os cadernos não têm nada sobre essa actividade de espionagem. O homem morreu dois meses depois da conversa e fui ao funeral e, no fim da cerimónia, acompanhei o nosso patrão até casa dele. Não tinha nada, só uns quadros, nem a quem deixar o que tinha. Havia alguns livros antigos, em francês e inglês, fiquei com dois ou três; e, numa gaveta, o patrão encontrou um maço de cadernos de escola manuscritos, repletos de uma letra miudinha. ‘Ah! Cá estão!’, exclamou o meu patrão. ‘O Gardener pediu-me para destruir estes cadernos’. Ao perceber que ele ia deitar tudo para o lixo, tentei travar o assunto. ‘Eu posso ficar com isso’, disse eu. Ele hesitou, houve uma discussão, que o Gardener tinha pedido, mas não o convenci. Destruiu quase todos os cadernos, mas consegui salvar estes. São apenas doze, dois escritos em húngaro, que talvez a tua mulher queira ler, quatro em inglês, os outros em português. E menciona os acontecimentos de 56. Pensei que te interessasse".&lt;br /&gt;Deixei os cadernos com o Naves; pedi-lhe que os tratasse bem e que os devolvesse depois de os ter lido.&lt;br /&gt;"É que eu gostava à brava daquele gajo", expliquei, antes de me despedir... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152961108995004?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152961108995004/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152961108995004' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152961108995004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152961108995004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/os-amantes-de-budapeste.html' title='Os amantes de Budapeste'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152940848977450</id><published>2006-10-22T16:00:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T16:31:28.486+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Klára leu-me o que está nos dois primeiros cadernos de István Farkas. Têm data de 1957 e 1958 e contam a sua história durante a revolução de 56. Farkas era estudante na universidade técnica e viu-se envolvido nos primeiros tumultos, no dia 23 de Outubro. Assistiu ao tiroteio junto da rádio, porque estava à procura da namorada, para a levar para casa. A rapariga chamava-se Eva e era estudante de música. Encontrava-se na rádio a ensaiar com uma orquestra juvenil (ela tocava violoncelo) no exacto instante em que Farkas se juntou aos outros estudantes, na praça da estátua do general Bem.&lt;br /&gt;István foi arrastado pela multidão na direcção da rádio e, ao perceber que ia haver violência, ficou muito agitado e começou a procurar Eva. Desesperado, ficou nas primeiras filas do povo e viu quando os mais exaltados começaram a apedrejar as janelas. E, por ironia, entrou na revolução a tentar travá-la, pois pensava que Eva ainda estava no interior do edifício e tentou impedir o apedrejamento. Na realidade, ela saíra antes, pois alguém avisara os músicos para abandonarem o local. István escapou ao tiroteio, mas foi pura sorte. Estando na primeira fila, poderia ter acabado como muitos dos jovens que lideravam a marcha. Ficaram vários corpos inertes no chão e a multidão enfureceu-se, investindo contra a odiada rádio.&lt;br /&gt;Infelizmente, a narrativa está interrompida neste ponto. O segundo caderno começa com os combates de Novembro. Ficamos sem saber o que aconteceu a Eva nos dias seguintes, embora se perceba que os dois amantes se reencontraram e viveram, juntos e num desespero, aquelas horas de angústia.&lt;br /&gt;Farkas recorda como, nas barricadas, à espera dos soviéticos, pensou que tinha poucos minutos de vida, no máximo algumas horas disponíveis. E concentrou-se em duas ideias, o seu amor por Eva e a pátria moribunda. E sendo a pátria impossível, qual o sentido de um amor que o esmagava?&lt;br /&gt;O combate com os soviéticos foi rápido. A barricada foi aniquilada pelos carros de combate. Ferido, Farkas fugiu por ruas laterais, com outros companheiros, perseguidos pela infantaria russa. Alguns não conseguiram correr e foram abatidos. István Farkas largou a sua arma, saltou um muro e correu pelas ruínas de um prédio (bombardeado durante a guerra) e que ainda não fora reconstruído. Os soldados soviéticos abandonaram a perseguição, pois arriscavam-se a cair numa emboscada. Ao sentir que tinha escapado, István correu para reencontrar Eva.&lt;br /&gt;Só nos resta a fuga, explicou ele à sua amante. Passaram essa noite juntos, enquanto se ouvia o som dos combates, que prosseguiram esporadicamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A noite torna-nos pequenos, até minúsculos, quando as trevas do medo nos engolem.&lt;br /&gt;A minha coragem dissipara-se e encontrava-me perante o eu mais obscuro e íntimo, que desconhecera até aquele dia. Sentia a respiração dela, o corpo dela abandonado e sereno, a meu lado, mas eu já perdera o fôlego, sabia isso, estava despido de sopro, com os músculos doridos e envergonhados. E formou-se essa angustiante visão de já não pertencer ali, de ser alheio a mim, pois na pátria que se afundava era eu próprio que me consumia como uma chama inútil, agora desfeito e apagado, agora sem rumo, agora à deriva...&lt;br /&gt;O gado encurralado no matadouro terá talvez a ilusão da sua eternidade. Um tio que esteve deportado nos campos de concentração contava-me que as pessoas avançavam para a morte como gado encurralado e, sabendo perfeitamente a sua sorte, esperavam até ao último segundo que houvesse um milagre, que aquilo não fosse bem assim, que havia talvez um ponto de fuga, um ângulo que os nazis não guardavam, ou um último gesto de humanidade...&lt;br /&gt;Sabemos que a esperança era em vão! Budapeste transformara-se numa gigantesca penitenciária, mas houve uma pausa e eles indicavam o caminho da fuga. Há comboios para ocidente e milhares apanhavam o comboio. A fuga tinha um toque de surreal, mas a porta abrira-se de facto, só não sabíamos por quanto tempo. Se eu não fugisse, esperava-me o ajuste de contas...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;István Farkas tentou convencer Eva a escapar com ele, mas não conseguiu. As razões da recusa não são claras. No seu relato, Farkas interroga-se: Eva não o amava suficiente ou foi para o salvar?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A última imagem que tenho de Budapeste é a de uma cidade a preto e branco, envolta pelo frio da morte. A bruma cobria o Danúbio, cuja água vinha alta. A humidade gelada cobria os telhados e uma brancura de cinza propagava-se até ao céu. E ela disse: "Tenho medo de te atrasar. Se for contigo, podes não conseguir fugir. Por isso, fico aqui". O meu coração gelou nesse mesmo instante.&lt;br /&gt;O resto, foi uma fuga desvairada por um longo túnel, longo, longo, longo....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152940848977450?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152940848977450/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152940848977450' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152940848977450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152940848977450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/klra-leu-me-o-que-est-nos-dois.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152920260346035</id><published>2006-10-22T15:57:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T16:33:04.240+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/1600/ceu-nuvens.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/320/ceu-nuvens.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A história está muito fragmentada a partir daqui.&lt;br /&gt;Num caderno escrito em inglês, em 1960, István Farkas conta como viu o céu cheio de nuvens, na sua derradeira imagem da Hungria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Estava frio e a luz do sol, um único raio, rompia através do ar translúcido.&lt;br /&gt;Para a fronteira, havia um caminho sinuoso, através do pântano. De um lado a floresta, do outro o campo vazio. E, por cima, num adeus celeste, formara-se uma curiosa abertura entre as nuvens, mancha de cor que parecia mostrar a saída da cela, dizendo que a forma da liberdade é um raio de azul...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152920260346035?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152920260346035/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152920260346035' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152920260346035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152920260346035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/histria-est-muito-fragmentada-partir.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152906282884767</id><published>2006-10-22T15:56:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T16:34:33.240+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tem interesse este excerto, escrito em inglês, no caderno número sete, datado de 1961:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Passaram cinco anos e começo a esquecê-la, pois esta é a impressão mais viva que tenho dela...Eva tem os olhos pequenos, castanhos, o cabelo escuro muito comprido e cuja madeixa segura com a mão direita, poisada sobre o peito (o seio é também pequeno, mas firme e de uma perfeição extrema). Ela veste uma camisa de noite branca, com folhos azuis nas mangas. Tem a cara redonda, em forma lunar, o queixo muito suave e a pele pálida; os lábios são grossos. Não me lembro dos dentes, mas penso que são pequenos, o que não impede que tenha um riso muito agradável. O arco das sobrancelhas é vincado, o que lhe dá uma expressão mais severa no meio daquela leveza. O pescoço é longo e julgo que esconde as orelhas debaixo da cabeleira lisa. A imagem que retenho dela: Eva observa-se ao espelho, banhada pela luminosidade ténue que entra pela janela onde estou encostado. Por isso, vejo-a a dois terços, ligeiramente dobrada para a sua direita. Eu estou em contraluz, do ponto de vista dela, mas Eva não me olha nos olhos. Está a observar-se ao espelho, que se encontra a meu lado. A luz choca de frente com ela e parece mais pálida do que era de facto. Tem as faces rosadas, pois fizemos amor nem há cinco minutos. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152906282884767?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152906282884767/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152906282884767' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152906282884767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152906282884767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/tem-interesse-este-excerto-escrito-em.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152900530119396</id><published>2006-10-22T15:55:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T15:56:45.303+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Farkas já vivia em Portugal quando escreveu o caderno nove do maço salvo pelo Daniel. Imagino que escrevesse dois ou três cadernos por ano e é pena que se tenham perdido tantos, porque poderíamos preencher as lacunas da história. Estes dois excertos, escritos num português ainda hesitante, têm data de 1965:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Soube que ela ia a Roma através de mensagens de amigos. Eva não é uma artista famosa e deve ser uma boa oportunidade tocar numa sala prestigiada. Encontro-a depois do concerto, para não a incomodar. Talvez no camarim, talvez no hotel. Terei de escolher bem. Comprar o bilhete de avião e calcular muito bem tudo, o dia, a hora, talvez esteja alguém da polícia a vigiá-la. Tenho de ser discreto. Talvez seja possível uma nova oportunidade para nós dois...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152900530119396?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152900530119396/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152900530119396' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152900530119396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152900530119396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/farkas-j-vivia-em-portugal-quando.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152891248911631</id><published>2006-10-22T15:52:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T15:55:12.490+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/1600/robert%20bereny%20(celloII).jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/320/robert%20bereny%20%28celloII%29.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Ela abriu a porta e, ao ver-me na entrada, sorriu muito ligeiramente, como se já esperasse que eu estivesse ali, a olhar para ela.&lt;br /&gt;"Posso entrar?", perguntei.&lt;br /&gt;Quando passei a porta, segurou-me no ombro e beijou-me na face.&lt;br /&gt;"Vi o concerto. Estiveste muito bem!", disse eu.&lt;br /&gt;Ela agradeceu. Era como se nos tivéssemos separado há duas semanas, em vez de nove anos.&lt;br /&gt;Perguntou-me qual era a minha profissão e mostrou grande contentamento quando lhe expliquei o pouco o que podia explicar sobre a minha vida,. Ficou encantada quando lhe disse que vivia no Estoril. Eva tinha a impressão de ser um sítio elegante e agradável, embora num país um pouco antiquado.&lt;br /&gt;"Sabes que casei", disse ela.&lt;br /&gt;Tentei não mostrar ciúme e disse que sim, sempre a sorrir.&lt;br /&gt;"É médico e uma excelente pessoa. E trata a tua filha como se fosse dele". Foi isto que Eva disse, assim, à bruta, com volúpia cruel.&lt;br /&gt;Só nesse instante percebi porque razão ela não tinha fugido da Hungria comigo.&lt;br /&gt;"Não sabia que tenho uma filha...", disse eu, e estava tão perturbado que, por um instante, penso que Eva teve dúvidas sobre a minha perplexidade.&lt;br /&gt;Ficou calada durante algum tempo, a sobrancelha moveu-se, traindo a sua hesitação, as mãos envolviam-se nervosamente uma na outra, procurando algo para dizer.&lt;br /&gt;"E como se chama a minha filha?"&lt;br /&gt;"Sara!"&lt;br /&gt;"Terá, portanto, uns oito anos..."&lt;br /&gt;" Sim, tem oito anos".&lt;br /&gt;"E ela sabe que eu existo?"&lt;br /&gt;"Não! E nunca saberá!"&lt;br /&gt;Era escusado prosseguir. O tempo tinha-nos colocado em pontos opostos da vida. Recordo-me de me despedir de forma envergonhada. Devo ter balbuciado um vago se precisares de alguma coisa. Ela estava encostada a uma cadeira, segurava o violoncelo. Eu queria dizer-lhe o muito que ainda a amava, mas não tive coragem.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152891248911631?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152891248911631/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152891248911631' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152891248911631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152891248911631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/ela-abriu-porta-e-ao-ver-me-na-entrada.html' title=''/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116152876568776754</id><published>2006-10-22T15:51:00.000+01:00</published><updated>2006-10-22T15:52:45.706+01:00</updated><title type='text'>Os amantes de Budapeste, último fragmento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No último caderno, datado de 1982, István Farkas faz uma derradeira referência a esta história:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Recebi uma carta de Eva. Diz que a minha filha, Sara, terminou os estudos de medicina. Vai casar na Primavera. Pela primeira vez, vi uma fotografia dela. É muito parecida com a minha falecida mãe.&lt;br /&gt;Li a carta com atenção. Depois, queimei-a. Durante dois dias, não tive ânimo para queimar também a fotografia. Ontem, decidi não olhar mais para trás.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116152876568776754?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116152876568776754/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116152876568776754' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152876568776754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116152876568776754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/os-amantes-de-budapeste-ltimo.html' title='Os amantes de Budapeste, último fragmento'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116145564337111030</id><published>2006-10-21T19:33:00.000+01:00</published><updated>2006-10-21T19:34:03.383+01:00</updated><title type='text'>Desejos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Figueiró fica no meio das serras e dos pinhais. A paisagem tem uma tranquilidade de veludo. Quando chove, o verde torna-se mais sombrio e espesso; nos dias solares, paira uma neblina de luz, que  distende as colinas, como se estas pudessem adormecer nos braços meigos da ondulação da terra.&lt;br /&gt;Tenho sobretudo memórias suaves da minha terra: a feira que se enchia de agricultores, que montavam junto à igreja grandes tendas cinzentas, formando um acampamento nómada; os grandes plátanos marulhavam na brisa da tarde e o sol tentava atravessar mil camadas de folhas, desde os ramos altos até ao solo, e cá em baixo ficava uma película de obscuridade, a qual apesar de tudo cintilava; subíamos por veredas até à colina mais alta e ali estava uma capela abandonada, de onde avistávamos todos os campos em volta, que as nuvens transformavam em retalhos de terra mais verde-escura, entre manchas mais verde-claras. Nunca me aventurei sozinha nos terrenos da capela, pois havia uma mata compacta nas imediações e, dali, podiam sair seres estranhos. Temia em particular as bruxas e os mortos-vivos do cemitério, esse então era o território preferido dos espectros desesperados, que tentavam escapar à prisão da eternidade.&lt;br /&gt;Sempre me encantou, essa efémera perfeição, a subtil passagem do vento, a respiração das coisas leves.&lt;br /&gt;Quando for muito velha, mesmo muito velha, quero regressar à casa onde passei a minha infância, gozar a janela que me deslumbra com o seu mundo amplo e cheirar as flores e agarrar um tempo que se desloca inexoravelmente para a sua morte.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116145564337111030?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116145564337111030/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116145564337111030' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116145564337111030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116145564337111030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/desejos.html' title='Desejos'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116128401856537183</id><published>2006-10-19T19:51:00.000+01:00</published><updated>2006-10-19T19:53:38.606+01:00</updated><title type='text'>Roma sci-fi</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/roma.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/roma.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Imagina, por um momento, que o Império romano não acabou em 476. Agora, imagina um conjunto de histórias num mundo dominado pelo império romano, no ano 1500, por exemplo, (será que eles teriam descoberto a América?) e por aí fora, qual revolução francesa, qual quê...", disse o Luciano, com o olhar brilhante de entusiasmo.&lt;br /&gt;"E até podia haver uma revolução republicana, aí por 1690", interrompeu Mário.&lt;br /&gt;"Exactamente, podíamos criar toda uma revista. Só faltam as ilustrações. O herói é um romano de Olissipo, completamente actual, e chama-se Lucianus, um nobre romano", prosseguiu Luciano.&lt;br /&gt;"Ou Marius, um general envolvido em combates com bárbaros".&lt;br /&gt;"Marius também me parece bem. O importante é que isto se passe numa Lisboa actual, mas romana".&lt;br /&gt;Não me apetecia estragar todo aquele entusiasmo, mas teve de ser:&lt;br /&gt;"Um escritor de ficção científica já se lembrou disso, o Robert Silverberg", disse eu.&lt;br /&gt;"Eh, pá, não sabia!", exclamou o Luciano, "mas o ponto de vista será o nosso..."&lt;br /&gt;Continuou a elaborar. Como seria a Lusitânia, e por aí fora, mas baixara de quinta velocidade e engatara uma terceira, como se estivesse a subir montanha acima. O Luciano é um tipo excêntrico e tem muitas ideias que outros já tiveram. Ele inventa aquilo genuinamente, sem saber que outro já passou por lá. São títulos óptimos, histórias fantásticas. Desta vez, entusiasmou-se com uma série de televisão, "Roma", e queria incorporar aquilo numa revista nova: tudo sobre Roma, detectives e exploradores espaciais, sensuais mulheres bárbaras, uma história da mafia em ambiente romano, a decadência, o imperador imaginário, entre obsessões com a queda do império.&lt;br /&gt;O meu amigo Luciano edita revistas que ninguém lê. Tem uma colecção delas; possui também uma editora que edita pequenos livrinhos de literatura de cordel, do cor-de-rosa à ficção científica. Crava-me muitas vezes para escrever nessas revistas. Os artigos são mal pagos, mas também me compra pequenas histórias de detectives. Faço aquilo com gosto. Não valem um caracol, mas divertem-me.&lt;br /&gt;O Luciano já tem idade para a reforma, mas não pára. Tem um escritório no prédio ao lado do meu cinema, num terceiro andar a cair da tripeça, e almoçamos muitas vezes. O Mário é um tipo engraçado (mais novo, excelente sentido de humor, sempre a contar os tostões, porque tem sete filhos). Ele é único funcionário da empresa. Falta-me explicar uma coisa: editar revistas que ninguém lê dá prejuízo, por isso a empresa do Luciano vive da edição de umas revistas de softporno. Eles facturam 95% da massa com aquilo e equilibram as contas. Perdem 2% do tempo com o que dá dinheiro. O resto, dedicam-se inteiramente ao seu sonho: histórias de detectives, de ficção científica maluca. Se só fizessem as edições porno, estavam milionários.&lt;br /&gt;Dizem que o Luciano já foi um tipo muito rico, mas dedicou-se àquela editora de revistas e livros que ninguém lê. Muitas vezes, tenho de lhe pagar o almoço, que é algo que faço com gosto, porque ele tem uma conversa fabulosa. E é uma máquina de ideias que já alguém teve antes dele, mas que teve genuinamente e que, por isso, também são as suas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116128401856537183?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116128401856537183/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116128401856537183' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116128401856537183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116128401856537183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/roma-sci-fi.html' title='Roma sci-fi'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116117113023262971</id><published>2006-10-18T12:27:00.000+01:00</published><updated>2006-10-18T12:32:10.266+01:00</updated><title type='text'>Rotina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Passei a manhã a tentar dar alguma arrumação à casa. Os miúdos têm ajudado, mas falta fazer tanta coisa. Enchi a máquina de roupa. O David está sem meias, a Sara tens os jeans apertados, preciso de comprar-lhe outros, ou dar-lhe dinheiro para ela escolher uns, mas se eu não a vigiar vai comprar um daqueles horríveis que as adolescentes agora usam, todos rotos, sem cor, e de boca larga no fundo. Quase desesperei ao ver a pilha de roupa para lavar! Demorei mais de meia hora só a escolher o que ia pôr na máquina e descobri peças que precisam de remendo. Depois, estive a preparar uma encomenda para a minha mãe. Tenho de a entregar no correio, perder tempo, mas farei isso amanhã. Fui ao supermercado: hoje, terei de improvisar para o jantar, não gostei muito do aspecto da carne, mas não tive mais tempo para ir ao talho. O David anda sempre cheio de fome, parece que está a dar um pulo, as meias rompem-se com facilidade. E mudou de voz, o que lhe dá aquele aspecto lasso e meio tonto dos adolescentes, sempre espantados com as mudanças nos seus corpos. Não me posso esquecer da encomenda para a minha mãe, o casaco que lhe comprei fará jeito, quando vier o inverno a sério. Ir compando os presentes de Natal! O pior é que me esqueci de pagar a água e, agora, já passou o prazo no multibanco e tenho de perder pelo menos meia hora na companhia. Devia ter feito uma sopa no domingo, agora não precisava de me preocupar tanto com o jantar, a sopa alimenta os miúdos e dispensa um prato mais substancial e difícil de cozinhar. A Sara anda tristonha, o que me preocupa. No outro dia contou-me que tinha saudades do namorado. Achei graça, mas tive de levar aquilo a sério. E ela disse: não o vejo há dois dias. E suspirava, como uma amante trágica. Mas não está a estudar nada. Vêm aí péssimas notas a matemática.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116117113023262971?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116117113023262971/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116117113023262971' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116117113023262971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116117113023262971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/rotina.html' title='Rotina'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116116259065052275</id><published>2006-10-18T10:07:00.000+01:00</published><updated>2006-10-18T10:19:52.633+01:00</updated><title type='text'>Sobre a derrota</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estava cheio de esperança. Comi um prego com muita mostarda, pus-me a beber. Na televisão do café (dava em canal codificado), a minha equipa subiu ao relvado. Como vos digo, eu estava cheio de esperança e o Toninho, sentado na minha mesa, parecia exultar. Nessa altura, ainda só estávamos a beber cerveja.&lt;br /&gt;"Não me agrada quando não vestem de vermelho", disse o Toninho.&lt;br /&gt;"Não agoires", interrompi.&lt;br /&gt;Os escoceses vestiam à Sporting, o que era bom sinal:&lt;br /&gt;"Ao verem aquelas camisolas, os nossos até sentem vontade de os comer vivos".&lt;br /&gt;Todos riram com a minha piada.&lt;br /&gt;A primeira parte correu bem. Controlámos. O pior foi na segunda. Precisávamos de pontuar e levámos um golo. Os outros tipos estavam assanhados e a nossa equipa baqueou. O Toninho tinha razão: dá azar quando não vestem de vermelho.&lt;br /&gt;Fomos bebendo cerveja e depois mudámos para bagaço. O café do Adriano estava cheio de homens aos berros, de fumo, de cheiro a cerveja, de cheiro a derrota. De vez em quando, pairava um silêncio de morte. Sobretudo depois dos três a zero.&lt;br /&gt;Quando o jogo acabou, eu tinha bebido muito, mas o Toninho estava de caixão à cova. Começou a chorar como um bebé, enquanto eu o amparava na rua. Eram 300 metros até casa dele:&lt;br /&gt;"A minha mulher já não fode comigo", dizia ele, a lamentar-se, com voz de bêbado. "Ela despreza-me, está diferente, ele há mouro na costa".&lt;br /&gt;"Tás maluco, pá", dizia eu.&lt;br /&gt;E ele, muito bebido, a bater-me com o indicador no peito, a cara transtornada por uma fúria íntima:&lt;br /&gt;"Tou-te a dizer, pá, eu sei".&lt;br /&gt;Era isso, então, o que o roía: delírio, o desespero de já não manter ilusões sobre o que o esperava, aquela vida desperdiçada, a prolongar-se em sonhos traídos.&lt;br /&gt;"Olha os teus filhos, pá, não sejas parvo, não estragues o que tens de bom", disse-lhe, com firmeza inútil.&lt;br /&gt;E ele mais furioso. Que a matava, que ia saber tudo. Percebi que não o podia deixar ir para casa. Ficámos à conversa numa entrada de prédio; na mesma altura caiu uma chuvada forte. O Toninho foi acalmando. Estava eléctrico. Contou-me tudo ou a realidade tal como ele a via. Ausências, silêncios, um nada.&lt;br /&gt;"Tens de beber menos, pá", disse-lhe.&lt;br /&gt;Já passava da meia-noite. Só o deixei ir para casa ao perceber que já estava mais calmo. Desapareceu devagar, patético, na escuridão das escadas do prédio.&lt;br /&gt;A chuva parara. Segui para o meu apartamento sabendo que me esperava a solidão. Já não tinha sono, o ar fresco despertara-me.&lt;br /&gt;E pensei em mim: como é que um homem pode viver sem uma mulher?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(&lt;em&gt;Gostei do texto do Naves, aqui em baixo. Sou como o capitão. A invisibilidade do barbeiro é terrível, mas ele tem sempre de olhar para o espelho, o que lhe dá alguma vantagem na compreensão de certas realidades).&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116116259065052275?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116116259065052275/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116116259065052275' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116116259065052275'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116116259065052275'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/sobre-derrota.html' title='Sobre a derrota'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116112277909031888</id><published>2006-10-17T23:03:00.000+01:00</published><updated>2006-10-17T23:06:19.103+01:00</updated><title type='text'>Reflexo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Colocamos mensagens nas paredes de uma casa assombrada. Os leitores dessas palavras são viajantes efémeros. Podem até deixar novas mensagens nas paredes, mas tudo é virtual. O que parece ter existência, afinal não existe. Tu és a excepção, pelo menos tens a certeza disso. Este local indistinto, chamado blogosfera, tem múltiplos habitantes, mas só tu, que me lês, estás aí.&lt;br /&gt;Eis a diferença entre o que aparece escrito num livro e estas palavras à solta, que não têm solo firme que possam pisar.&lt;br /&gt;Uma pessoa que observa o seu reflexo é ela mesma ou quem ela se imagina ou alguém que os outros estão a ver enquanto se olha?&lt;br /&gt;Num conto de Vladimir Nabokov, há um barbeiro em Berlim que é antigo capitão dos exércitos brancos da guerra civil russa. Por acidente, o seu torturador comunista entra na barbearia. E, perverso, o escritor deleita-se a descrever a lâmina afiada a percorrer a garganta do comissário, deslizando na pele, empunhada pela personagem do capitão, que se interroga se deve ou não cravá-la no comunista indefeso, desatento ao que está completamente visível perante os seus olhos, se ao menos olhasse o espelho. Ou seja, e esse é o ponto crucial, o invisível barbeiro é sempre mais do que essa precária sombra, mal perceptível. O nosso erro é nunca olharmos com cuidado.&lt;br /&gt;A literatura vale pela força de verdade que as palavras carregam. Cada vez que hesitamos, essa necessária nudez fica mais longe. Mas, por outro lado, à lâmina só é permitido deslizar, muito ao de leve, sobre a ténue casca da pele. E ao intruso indefeso, nunca convém olhar de frente o espelho.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116112277909031888?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116112277909031888/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116112277909031888' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116112277909031888'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116112277909031888'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/reflexo.html' title='Reflexo'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116110443361155528</id><published>2006-10-17T17:54:00.000+01:00</published><updated>2006-10-17T18:00:33.626+01:00</updated><title type='text'>Uma canção</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/das%20boot.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/320/das%20boot.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não me sai da cabeça uma velha canção. Esta obsessão dura há dias. Chama-se &lt;em&gt;J’Attendrai&lt;/em&gt;. O que não me sai da cabeça é tocado por um disco meio riscado, que passa numa velha grafonola, a bordo de um submarino da Segunda Guerra. É mistura de memórias, parcialmente também de um filme. &lt;em&gt;Das Boot&lt;/em&gt;, de Wolfgang Petersen. O lobo do mar gosta da canção, cantada naquela versão por Rina Ketty, em 1939. A letra é banal, talvez, mas o conjunto tem um encanto que retrata uma época desaparecida: &lt;em&gt;j’attendrai le jour et la nuit, j’attendrai toujours, ton retour...&lt;/em&gt; Depois, prossegue em registo de má poesia, falando de um pássaro em fuga, que procura o esquecimento, o tempo passa e corre... Para o marinheiro, a canção é o eco de um momento, certamente de um amor deixado em terra, a noite que ele lembra com acordes ritmados, a volúpia da dança, veludos, contrastes, luzes ténues, o corpo quente de uma mulher...&lt;br /&gt;...Como se o tempo fosse uma película fina de tinta, quebrada pelos ardores da própria decadência, quanto mais procuramos, mais camadas descobrimos na sua base...&lt;br /&gt;...&lt;em&gt;J’Attendrai&lt;/em&gt; é na realidade uma canção italiana, &lt;em&gt;Tornerai&lt;/em&gt;, escrita por Dino Olivieri, em 1933. Descobri isto na internet, porque a melodia não me deixa, porque me agarrou, ao passar por mim, e também fui à procura dela...&lt;br /&gt;...Há canções que circulam na atmosfera, no espaço e no tempo, como fazem os fantasmas. Esta veio na forma de &lt;em&gt;J’Attendrai&lt;/em&gt; e não na de &lt;em&gt;Troverai&lt;/em&gt;, o que me permite perceber que são duas diferentes, ou melhor, nunca tendo ouvido &lt;em&gt;Troverai&lt;/em&gt;, sou imune ao seu sortilégio...&lt;br /&gt;...Acredito que o marinheiro ouça ainda a mesma canção. A eternidade escolhe alguns instantes: Rina Ketty canta &lt;em&gt;J’Attendrai&lt;/em&gt; na imensidão fria de um submarino vazio, que navega na profunda noite do oceano, como um navio fantasma. Ecos... &lt;em&gt;Le temps passe et court&lt;/em&gt;...&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116110443361155528?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116110443361155528/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116110443361155528' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116110443361155528'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116110443361155528'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/uma-cano.html' title='Uma canção'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116099936649257614</id><published>2006-10-16T12:48:00.000+01:00</published><updated>2006-10-16T16:53:30.373+01:00</updated><title type='text'>Fragmento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O que escrevo aqui são pedaços da vida. Fragmentos sem nexo ou atados por um cordel. Como se fossem restos cortados de cabelos a espalharem-se pelo chão, por vezes em grupos compactos, por vezes soltos. E a minha tesoura ganha vontade própria, atenção perfeccionista, tentando domar a forma, embora isso resulte num aparente caos que devo depois varrer.&lt;br /&gt;Tive essa percepção de restos ao caminhar hoje para a barbearia. Junto a uma paragem de autocarros, havia uma grande cova no piso e a chuva inundava aquele vale negro com fúria e era também com raiva infantil que os condutores procuravam passar por cima da cova, criando salpicos que se erguiam no ar e se lançavam até às pessoas que esperavam o autocarro atrasado pelo trânsito. A água molhava-os nas calças, mas não eles abandonavam o abrigo, porque chovia intensamente. E os carros de passagem lançavam essa súbita onda de fragmentos sobre cada um e as pessoas resmungavam, embora não saíssem do abrigo.&lt;br /&gt;Passei pelo jardim junto à igreja e continuei colado às fachadas dos prédios de quatro andares. O passeio estava irregular naquela zona e formavam-se pequenas poças de água no côncavo do caminho. E, nessas bacias artificiais, as minhas botas cravavam-se com mais força, produzindo estilhaços.&lt;br /&gt;Depois, a rua saía do planalto e descia abruptamente, na direcção do centro da cidade, para o velho jardim municipal e, depois para a estação ferroviária. E a água corria, rua abaixo, e o regato era alimentado por uma chuva grossa, tão densa que já não dava a sensação de fragmentos.&lt;br /&gt;Não sei porque vos conto isto. Não parece ter a ver com a minha vida. Mas, de estranha forma, tem tudo a ver. O que fiz até hoje não possui fio certo: são detalhes à solta e momentos sem importância.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agora, cai uma bátega e o ar ficou mais leve e mais cinzento. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116099936649257614?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116099936649257614/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116099936649257614' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116099936649257614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116099936649257614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/fragmento.html' title='Fragmento'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116092774028054107</id><published>2006-10-15T16:47:00.000+01:00</published><updated>2006-10-15T16:55:40.300+01:00</updated><title type='text'>Se as pessoas são como as nações...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/queen-hearts.png"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/200/queen-hearts.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/king-spades2.png"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/200/king-spades2.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se as pessoas são como as nações, eu e a Rosinha vivemos numa guerra fria feita de pequenas e constantes escaramuças, as quais acabam invariavemente numa negociação diplomática, em curta paz e novo mal-entendido. Há sobretudo três motivos para estalar um conflito entre nações ou entre pessoas, a ser válida a comparação. Uma das razões é o medo: cada lado interpreta mal os sinais de agressividade que vêm do outro lado; alguém pensa estar em perigosa inferioridade, perante a iminência de um ataque, ou em ilusória vantagem, perante uma boa oportunidade. Nestes casos, a guerra resulta da má avaliação do real, mas sobretudo da falta de informação.&lt;br /&gt;Não posso dizer que exista muito medo na minha relação com a Rosinha, à excepção das ciumeiras que nos atacam com regularidade. Insegurança, o desconhecimento do outro, por vezes o gosto da paranóia, o desvario de interpretar mal os sinais. Muitas vezes, imagino-a nos braços de um amante e sinto arrepios incontroláveis, o desejo de nunca mais olhar sequer para ela. Não é uma angústia que me ocorra frequentemente e, por isso, sei que o ciúme pode ser anulado, na condição de não se tornar paixão doentia. Ou seja, um ódio.&lt;br /&gt;Claro que a maioria dos conflitos entre nações tem na sua origem o impulso de alguém ou de um grupo. O interesse egoísta (capturar território, conquistar um recurso, dominar uma população ou anular uma ideologia) é a grande alavanca da maioria dos conflitos. Só quando um dos lados está satisfeito, a paz é possível. Esta será intermitente, até haver novo interesse ou o lado derrotado tentar recuperar o que perdeu. Neste domínio, há múltiplas histórias de ambição desmedida, erros de cálculo, simples estupidez. Tudo isto não se aplica inteiramente à minha relação, mas também lutamos por espaço vital, por exemplo, ou para evitarmos certas responsabilidades. Há luta pelo poder feita de estudo incessante das fraquezas, visando uma estratégia que obrigue à rendição do outro.&lt;br /&gt;Enfim, há ainda o maior motivo dos nossos conflitos, o orgulho, presente em numerosas guerras. Sou orgulhoso. O que me irrita tantas vezes na Rosinha é uma certa impertinência, quando desata a falar sobre o que não sabe. Nessas ocasiões, começo a contrariá-la, a gozar com ela, sabendo que isso a ofende. E, de súbito, estamos a discutir. E tentamos atingir onde doer mais, usando a terrível arma da verdade. Quase sempre acabamos nos braços um do outro, ela a chorar, eu a pedir desculpa. Mas, por vezes, fica um pedaço de cada um devastado, como se tivéssemos perdido território ou um exército no campo de batalha. E, na paz, tentamos curar o que sobreviveu das nossas almas e reconstruir os nossos castelos de fronteira, a preparar o próximo confronto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116092774028054107?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116092774028054107/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116092774028054107' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116092774028054107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116092774028054107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/se-as-pessoas-so-como-as-naes.html' title='Se as pessoas são como as nações...'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116084152587632579</id><published>2006-10-14T16:58:00.000+01:00</published><updated>2006-10-14T18:42:42.153+01:00</updated><title type='text'>Manhã de sábado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Hoje, levantei-me cedo, saí de casa e caminhei ao acaso pelas ruas. Estava sozinha e essa solidão apertava-me o corpo. E não estou a embelezar, mas de facto apertava-me, como se uma mão espessa, muito no interior do ventre, se fechasse lentamente.&lt;br /&gt;O Tiago veio ontem buscar os miúdos e eles partiram para o fim-de-semana. A Sara estava demasiado contente, acho. Ela tem uma paixoneta pelo pai, como acontece com a maioria das raparigas de 16 anos. Não lhe perdoa que ele tenha saído de casa, mas quando me quer desafiar, age como se a culpa tivesse sido apenas minha. O David, no fundo, queria ficar comigo, e estava relutante, mas acabou por ir também, porque o meu ex-marido lhe promete presentes, porque o leva a ver um filme ou a comer num sítio engraçado.&lt;br /&gt;Acordei às sete e senti com amargura que os meus filhos não estavam em casa. Levantei-me e comecei a manhã com as mesmas rotinas de sempre. E, de súbito, dei comigo vestida, como se pudesse sair para o emprego. Ainda pensei em sentar-me e ler, mas vi que o sol brilhava lá fora. Saí, quase sem pensar.&lt;br /&gt;Uma brisa suavizava o tépido embalo da luz forte, que ao espalhar-se pelos prédios acentuava as cores. As sombras eram ainda alongadas e as ruas estavam quase vazias, adormecidas num ritmo de manhã de sábado. Deslizei por um passeio sem obstáculos: os cafés numa modorra; algumas lojas abertas, mas sonolentas; uma velhinha com o seu cão; o dono de um quiosque a iniciar a manhã; um autocarro que passava sem pressas. Devo ter caminhado horas. Desci por uma avenida até ao centro, comprei jornais e sentei-me num café a ler. O tempo passou numa espécie de flutuação, como água num regato ou pequenas nuvens brancas no oceano azul. Depois, sai do café e caminhei até um jardim. Perdera a noção do tempo. Sentei-me e fiquei ali, apenas a observar as pessoas, a ouvir o canto de um pássaro, a pensar em mil assuntos. Ao meio-dia, tocaram os sinos da igreja nova. Percebi que regressara até perto de casa. Pensei na Sara e no David. A melodia dos sinos prolongou-se, simples, não demasiado alta, apenas o suficiente para criar uma atmosfera doce. E, então, percebi como tudo se conjugava e fui inundada por uma sensação diferente, que só posso definir como uma exaltação muito próxima da felicidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116084152587632579?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116084152587632579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116084152587632579' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116084152587632579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116084152587632579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/manh-de-sbado.html' title='Manhã de sábado'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116068385740221349</id><published>2006-10-12T21:05:00.000+01:00</published><updated>2006-10-12T22:38:26.846+01:00</updated><title type='text'>A lua</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/1600/Moon.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/320/Moon.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;No final de 97, emigrei para a Guiné-Bissau devido a uma série de acasos. O meu irmão mais velho esteve na guerra colonial, na Guiné, e falava muito da sua experiência. Ele chegou lá pouco antes do 25 de Abril e essa foi a única sorte que teve. A guerra estava perdida e ninguém saía dos aquartelamentos, pois era emboscada certa. O meu irmão ainda apanhou sustos, mas o essencial da comissão foi a transição de poder e a vida no quartel, até ao regresso a Lisboa. O António nunca esqueceu e (acho que foi em 91) decidiu ir lá de férias e pediu-me para o acompanhar. Eu acabara de chegar de França, vinha de bolsos cheios e alinhei na aventura. Passámos quinze dias na zona de Cacheu, onde ele tinha estado a maior parte do tempo. Dormíamos num clube de caça perto do rio, onde havia uns quartos com ar condicionado (chamavam hotel àquele buraco, mas servia os nossos interesses). Andámos de piroga no rio, falávamos com toda a gente. Adorei África e, nos anos seguintes, mantive o projecto de mudar de vida. Em 97, não resisti mais e aproveitei a oportunidade de um emprego nas obras de construção de uma ponte.&lt;br /&gt;Naquela viagem com o meu irmão, seis anos antes, o que mais me impressionou foi quando ele visitou uma tabanca próxima e ali procurou uma família. O António não me contou a razão, mas fui percebendo que era uma viagem que servia para reacender certas memórias. O meu irmão arranhava o crioulo e compreendi que estava emocionado, ao falar com o velho e com uma mulher idosa, em frente à casa muito pobre (cheirava a matéria podre e excrementos, de mistura com o odor inconfundível de fogueiras improvisadas e mal apagadas). Eles conversaram e eu distribuía lembranças pelos petizes, que pareciam felizes, chegavam das redondezas, muitos, numa algazarra.&lt;br /&gt;Quando regressámos à base, eu guiei o jipe e o António vinha triste e pensativo. Perguntei-lhe a razão da visita e quem eram aqueles velhos. “A velha, como tu dizes, era a minha moça, aqui”, respondeu ele. Ficou calado muito tempo, depois explicou. “Nesse tempo era ainda o que se chama uma bajuda, praticamente uma menina. Ainda não passaram vinte anos e envelheceu tudo aquilo, parece ter idade para ser minha mãe, mas não terá mais de 35 anos”.&lt;br /&gt;Só à noite o António voltou a falar no assunto. Viemos para fora, para uma espécie de pátio em frente ao bungaló. Estava lua cheia e havia uma luminosidade misteriosa, que se reflectia nas grandes folhas do mato obscuro e em nuvens baixas, que passavam como pássaros nocturnos pelo céu próximo. No vasto rio estava marcado um caminho de luz tremente. Acendemos uma fogueira e ficámos calados a observar os ramos incinerados.&lt;br /&gt;“Eu gostava muito daquela rapariga”, disse o António, de súbito. “Ela talvez gostasse também de mim, à sua maneira. Hoje, mostrou-me o cartão de combatente. À noite, ficava no quartel. Era espia. Foi minha mulher durante alguns meses mas, sem que eu soubesse, era guerrilheira. No fim, casou com aquele homem, o comandante da guerrilha na zona. Têm oito filhos. Ele sabia de mim e tratou-me como se eu fosse primo dele. A vida é tão estranha! Os dois ganharam a guerra, mas agora são tão pobres que a perderam de facto”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116068385740221349?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116068385740221349/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116068385740221349' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116068385740221349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116068385740221349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/lua.html' title='A lua'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116060656087055592</id><published>2006-10-11T23:38:00.000+01:00</published><updated>2006-10-11T23:58:38.466+01:00</updated><title type='text'>À noite</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/1600/corros??o.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/400/corros%3F%3Fo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jorge chegou a casa e trazia aquela sua expressão preocupada de quem vem a matutar num assunto. Pensei que tivesse ouvido as notícias, mas percebi logo que não era essa a questão. Sim, ele soubera do choque do avião com um edifício em Nova Iorque. Vira o fogo e tudo, mas sem se interessar demasiado. É atentado? perguntou apenas. Eu respondi que não era. Tinham dito que não era atentado, que parecia acidente, expliquei. Já jantaste? Eu respondi que sim, que tinha primeiro esperado, mas ele não atendera o telemóvel, ficara preocupada e, depois, comera qualquer coisa. Fizeste bem, exclamou Jorge. Eu não lhe perguntei onde estivera, mas ele tomou a iniciativa e adiantou que passeara um pouco e parara num café, onde vira a televisão. Todos os canais estavam a dar o acidente de Nova Iorque, que lembrava os atentados de 2001. Morreu alguém? perguntou o Jorge. Eu respondi que havia pelo menos quatro mortos. É pena, mas ainda bem que não foi atentado, disse ele.&lt;br /&gt;A curiosidade do meu marido estava satisfeita. Foi para a cozinha. Não me chamou, percebi que ele queria ficar sozinho. Ouvi a campainha do microondas e o roçar do prato no vidro. E ouvi também quando puxou da cadeira. Comeu em silêncio.&lt;br /&gt;O Jorge não é exactamente meu marido. Usei essa designação, mas ela não corresponde à verdade. (Verdade, outra palavra tão estranha a estas linhas). Quando ele se sentou na cozinha, mil pensamentos me ocorreram, mas ao ler o que escrevi antes, até parece que não sofri. É mentira. Fiquei confusa. Por que não me fez companhia? Porque me tratou como se eu fizesse parte da mobília? Por vezes, o Jorge parece esquecer-se de que eu existo.&lt;br /&gt;Nunca nos casámos. Os meus pais têm um desgosto, mas ele tem sido sempre intransigente. Diz que deve manter a liberdade e, de qualquer maneira (apenas o cito) não se casa para me proteger. No fundo, é patético.&lt;br /&gt;Quando acabou de comer, fez algo que não é dos seus hábitos: lavou a loiça e arrumou tudo, cuidadosamente. Percebi nesse momento que o Jorge procurara ficar sozinho, talvez para pensar em silêncio, enquanto mastigava, a observar atentamente o fundo do prato. Depois, prolongando essa solidão, lavando e arrumando.&lt;br /&gt;Fechei a televisão. As imagens do acidente já me eram insuportáveis.&lt;br /&gt;Entrei na cozinha; o Jorge acabara a tarefa. Sentara-se na pequena mesa, encostado ao frigorífico. Acendera um cigarro. Estava a fumar. O que foi, o que tens? perguntei-lhe. Ele sorriu, depois disse que não era nada. Gosto de ti, disse ele. Quero respirar o ar que respiras, sonhar os sonhos que sonhas, pensar as coisas que pensas, esperar por ti, até que venhas para a cozinha.&lt;br /&gt;Disse tudo isto assim, de forma complicada. E foi então que percebi que ele tivera uma daquelas crises. O que foi? perguntei outra vez. Nada, não foi nada, disse o Jorge.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Então, inspirou com força o cigarro e a centelha ardeu, muito incandescente, como se fosse a brasa de metal oxidado em lume brando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116060656087055592?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116060656087055592/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116060656087055592' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116060656087055592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116060656087055592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/noite.html' title='À noite'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116057682305547508</id><published>2006-10-11T15:25:00.000+01:00</published><updated>2006-10-11T15:28:51.976+01:00</updated><title type='text'>Ilusão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje, o Daniel veio almoçar comigo. Telefonou ao fim da manhã, disse que concluíra um negócio mais cedo do que esperado e tinha tempo livre. Chegou antes da uma da tarde, eu ainda estava a arrumar umas papeladas e ele ficou sentado no escritório, à minha espera, a ler uma revista de cinema. Depois, fomos a um pequeno restaurante do bairro e conversámos.&lt;br /&gt;Inicialmente, a conversa foi sobre filmes e sobre a casa que ele vendera nessa manhã; um apartamento minúsculo, mas com uma vista excelente sobre o centro da cidade. Trocámos banalidades mansamente, mas fui notando que o meu amigo não parecia o mesmo: estava menos divertido, mais tenso, por vezes perdia-se em breves olhares distantes, distraído com algum pensamento vagabundo.&lt;br /&gt;Não compreendera que o Daniel precisava de desabafar. Ele comera depressa, mas deixara no prato quase metade da comida. Só nessa altura percebi que alguma coisa o estrangulava. Perguntei o que se passava, à espera que ele encolhesse os ombros, numa resposta imprecisa, mas em vez disso ele começou a contar-me que conhecera uma rapariga, num fim-de-semana, mas que ela era de facto amante de um homem cheio de dinheiro e que a relação entre os dois teria de ser clandestina. Objectei, dizendo que me parecia uma complicação desnecessária, se os dois se amavam, o amante dela estava a mais.&lt;br /&gt;“Tu não compreendes, Jorge!”, disse o Daniel, num voz segredada. “Amo-a, fiquei apaixonado por ela, mas a Susana nunca abdicará dos luxos pagos pelo amante”. E enfrentou-me com o olhar, como se tivesse dito algo de definitivo. Crispara-se, à beira de uma reacção histérica, à espera da minha resposta.&lt;br /&gt;Eu começava a perceber a situação. Fiquei algum tempo calado, a observar o gesto desesperado do meu amigo, a rever todas as estranhas ligações daquele caso.&lt;br /&gt;“Portanto, ela não te ama...”, disse. “Essa Susana prefere os luxos pagos pelo amante... Talvez não devas estar apaixonado...Ou talvez seja possível que te tornes tu o amante dela... Mas, naturalmente, nessa situação, o amor seria um empecilho e o outro teria de continuar a pagar os luxos...”&lt;br /&gt;O Daniel olhou-me, meio perplexo. Aquilo não lhe ocorrera ou não conseguira formular a questão naqueles termos.&lt;br /&gt;“Não a posso partilhar”, disse Daniel.&lt;br /&gt;Quase respondi que ele já a partilhava, na melhor das hipóteses, mas contive-me a tempo. De súbito, entendi que a conversa não pertencia ao domínio do concreto. A sua paixão era feita de uma cegueira fundamental que o impedia de ver aquilo que, para mim, continha a simplicidade do óbvio. Por isso, Daniel via quimeras e fantasmas, como numa espécie de alcoolismo. Já passei por aí, meu irmão, pensei. E tive pena dele, o que é um pensamento miserável para dedicar a um amigo...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116057682305547508?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116057682305547508/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116057682305547508' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116057682305547508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116057682305547508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/iluso.html' title='Ilusão'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116048227588469782</id><published>2006-10-10T13:10:00.000+01:00</published><updated>2006-10-10T13:11:15.896+01:00</updated><title type='text'>Sensação de já vivido</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Acabara de me sentar e, de repente, tive uma sensação de já ter vivido aquele momento. Pensei, por um vivo instante, que regressara à Guiné. Foi uma sensação muito estranha, porque o autocarro estava parado no trânsito, com o ar condicionado ligado, o que produzia uma atmosfera fresca e confortável, em nada semelhante à da África tropical.&lt;br /&gt;Já aqui escrevi que passei algum tempo na Guiné-Bissau, num período difícil da minha vida. Foi a minha segunda emigração. Estive quatro meses na construção de uma ponte, onde fazia de capataz das obras, e vivi mais seis meses em Bissau, onde arranjara um emprego bem mais agradável, de gerente de um restaurante. No fim, tive azar, podia ter ficado lá, mas houve um golpe de Estado. Ainda fiquei em Bissau dois meses, durante os combates, mas acabei por regressar, sem dinheiro e sem perspectivas. Talvez um dia conte aqui algumas das histórias destes meses tão difíceis, mas ainda não me atrevi, pois muitos dos episódios são dolorosos.&lt;br /&gt;Hoje, nestas linhas, o essencial era contar-vos aquela estranheza do já vivido. Durou menos de um segundo e logo acordei dessa divagação esfumada. A realidade impunha-se de novo. Fazia frio no autocarro, a luz não era a certa, então porque me lembrara tão intensamente da Guiné? Levei tempo a perceber que a minha memória tinha reagido ao rádio que o condutor do autocarro deixara ligado, uma emissão ininteligível, que debitava à solta vozes e música imprecisas. E aquilo ligava-se, por vias misteriosas, à inclinação da rua, lá fora e a uma certa forma do muro do outro lado do passeio. Apenas isso.&lt;br /&gt;Fiquei algum tempo confuso, mas a tentar também recuperar aquele momento que, entretanto, se perdera. Queria revivê-lo, mas a memória não se deixava fixar de novo a impressão poderosa que antes sentira. O autocarro deslizou pelo trânsito, atravessou mais algumas ruas e saí um pouco à frente. Lisboa estava agitada. O céu ameaçava chuva.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116048227588469782?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116048227588469782/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116048227588469782' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116048227588469782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116048227588469782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/sensao-de-j-vivido.html' title='Sensação de já vivido'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116041867261871800</id><published>2006-10-09T19:27:00.000+01:00</published><updated>2006-10-09T19:31:12.636+01:00</updated><title type='text'>Ana Karenina</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2434/3884/1600/anna-karenina.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2434/3884/400/anna-karenina.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Neste fim-de-semana, estive a reler excertos de Ana Karenina. Tenho uma velha edição da Minerva, pequena, encadernada, que a minha mãe me ofereceu. O nome do autor ainda está aportuguesado, Leão Tolstoi. Quando li pela primeira vez o livro, senti-me muito identificada com Ana e, sobretudo com a paixão por Vronski. Lembrava-me sobretudo da emoção dela na cena das corridas de cavalos, ao ver cair o homem que amava, não tentando sequer esconder o seu amor. Também me impressionou a cena quase inicial, na estação, onde ela conhece Vronski, mas então ocorre aquele episódio tão visual do atropelamento do ferroviário.&lt;br /&gt;Tantos anos depois, acho mais terrível e trágico o facto de Ana perder o filho; é isso que a torna mais próxima de mim. E também a personagem cruel e fria de Alexei Karenine. Recentemente, sonhei que me tiravam os meus filhos, acusando-me de ser uma mãe incompetente e, muitas vezes, tenho pesadelos em que ando desesperada pelas ruas, ou na selva, à procura deles. E quando o Tiago nos deixou, foi daquela maneira, parecia Karenine.&lt;br /&gt;A escolha de Ana Karenina é suprema dilaceração, a de optar entre o amor de mulher e o amor de mãe e a crueldade de uma situação que a obriga a escolher. E, ao perder nas duas frentes, perde-se o sentido de viver. Não percebo o que há em certos livros que torna tão fortes as suas personagens: não é a parecença com o real, porque não existe nenhuma Ana Karenina no mundo; existe antes um pedaço dela em cada uma de nós.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116041867261871800?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116041867261871800/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116041867261871800' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116041867261871800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116041867261871800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/ana-karenina.html' title='Ana Karenina'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116040836946892542</id><published>2006-10-09T16:34:00.000+01:00</published><updated>2006-10-09T16:39:29.483+01:00</updated><title type='text'>O meu avô republicano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O meu avô republicano nasceu em 1900 e tinha acabado de fazer 15 anos quando estalou uma revolução em Lisboa. Era ainda rapaz, mas juntou-se aos homens da marinha que protegiam todo o centro da capital, sob o olhar atento dos vasos de guerra que, do rio Tejo, faziam mira aos do governo. (Ele já não se lembrava se eram três ou quatro navios). O meu avô contava que teve então o seu baptismo de fogo, numa rua de que infelizmente já não me lembro do nome, mas que ele descrevia como se ainda estivessem ali os próprios tijolos das paredes. Os homens fizeram uma barricada e resistiram, com apenas uma baixa, um carbonário valente, um homem alto, que tombou morto mesmo ao lado do meu avô.&lt;br /&gt;Um dia, pouco antes de morrer, o avô viu pela primeira vez, por acaso, aquela célebre fotografia da guerra civil espanhola, do soldado republicano a ser atingido, o exacto instante da morte, e ao ver a imagem começou a chorar baixinho: "foi assim que ele morreu", disse, e imitou o mesmo gesto e eu sabia de quem ele estava a falar.&lt;br /&gt;Depois de ficar viúvo, o avô veio viver connosco, num quartinho minúsculo. Tinha uma reforma pequena e não podia viver na própria casa, porque não tinha casa própria. É por causa dele que eu sou de esquerda. O avô não foi logo comunista; começou por ser republicano, mas depressa se tornou anarquista. Penso que foi preso nos anos 30, talvez em 31 ou 32, por ter participado numa tentativa revolucionária. E foi na prisão que conheceu comunistas e se tornou um deles. Seria preso mais uma vez, nos anos 50, e aí bateram-lhe forte e feio. Era operário e participou em greves e tudo, nos dias em que isso implicava fome para toda a família, incluindo para os pequenos, o meu pai, os meus tios.&lt;br /&gt;"Não emigrei para o Brasil por causa dessa revolução de 1915", contou-me ele, um dia. "Foi um sarrabulho dos diabos, um tiroteio de acordar morto. Eu não sabia atirar, mas deram-me uma espingarda, porque tínhamos assaltado o arsenal e distribuíam-se armas pelo povo. Éramos tão pobres, que não havia mais nada a perder. E desciam as tropas rua abaixo quando estalou a fuzilaria. Nem sequer consegui armar a fusca a tempo. Então, caiu o camarada, mesmo ao meu lado. Durante algum tempo, esqueci-me da guerra e tentei estancar o sangue que saía pela ferida. E morreu nos meus braços. Eu estava tão nervoso, que peguei na arma sem perceber que os tiros haviam cessado. Tinha os olhos cheios de lágrimas e não consegui fazer pontaria. Disparei. Não matei ninguém, só acertei em cheio numa maldita de uma cisterna de água. Toda a gente tinha falhado; toda a gente estava calada; mas eu atingi aquela porra e ficou um estúpido fio de água a cair de cinco metros quase no meio da rua, entre eles e nós".&lt;br /&gt;E ria-se muito da história. Aquele meu avô, que sofreu tanto pelas suas ideias, morreu em 88, ainda a recordar certas lembranças, como se fossem fios de água a cair na terra de ninguém.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116040836946892542?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116040836946892542/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116040836946892542' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116040836946892542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116040836946892542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/o-meu-av-republicano.html' title='O meu avô republicano'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116033022471569905</id><published>2006-10-08T18:55:00.000+01:00</published><updated>2006-10-08T19:20:51.433+01:00</updated><title type='text'>O corpo</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/1600/bonnard%20desenho.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1039/3867/320/bonnard%20desenho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tantas vezes senti os olhares desagradáveis dos homens cravados no meu corpo, como se estivesse nua em público; olhares gordos de desejo malicioso, que me humilhavam. Mas, naquele dia, senti que o homem desconhecido via o meu corpo e os meus gestos e que verdadeiramente me apreciava como mulher. Ele disse-o, com o sorriso de quem se deixava levar pela beleza pura de uma pintura. E (sei que não o devia ter feito) retribuí o olhar, que não era apenas de cobiça, antes um cumprimento. Senti-me despida na mesma, mas com a sensação de me derreter ao conforto reclinado de almofadas, ou na protectora situação da minha nudez estática ser observada por desenhadores, absorvidos apenas em determinar o peso relativo de cada um dos meus contornos e tirando daí o prazer que transformava esse mesmo corpo numa visão poética... O homem desconhecido sorriu sem avidez e fixou os meus olhos, e ali me abandonei um pedaço de tempo, como uma beata a falar com ele em silêncio (ausente do ruído agitado das pessoas que chegavam à plataforma da estação do metropolitano). Foi uma conversa breve, porque chegava o transporte e fomos ambos arrastados pelas correntes desconexas da multidão e ficámos separados por duas ou três pessoas, ele quase na porta do outro lado, eu entalada no meio de um grupo onde quase não me podia mover. Entre três estações, olhámos um para o outro. Ia entrando mais gente e crescia o abismo entre nós. Depois, deixei de o ver. Ainda o procurei, mas desaparecera. Ao caminhar para casa, fui meditando naquele olhar sem astúcia e ao chegar, tirei a minha roupa e fiquei a observar o meu corpo ao espelho. Depois, tomei um banho, para sentir a água tépida acariciar a minha pele.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;Desenho de Pierre Bonnard&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116033022471569905?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116033022471569905/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116033022471569905' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116033022471569905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116033022471569905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/o-corpo.html' title='O corpo'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116032528850698748</id><published>2006-10-08T17:31:00.000+01:00</published><updated>2006-10-08T17:34:48.516+01:00</updated><title type='text'>Classes sociais</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;"Consigo saber a origem social de uma pessoa pelo carro que guia. Não apenas a marca ou o preço, mas o estilo de carro. Depois, observo a roupa e a elegância da conjugação de cores, o estado geral do corpo, sobretudo os dentes e se faz ginástica. Finalmente, tento perceber cada detalhe daquilo que a pessoa diz, a maneira como diz e certas palavras (xícara, em vez de chávena) que pronuncia". O Paulo afirmou isto com ar pomposo. Vendo bem, se tivesse dito tanto disparate há duas semanas, eu teria concordado. Assusta-me afirmá-lo desta forma brutal, mas eu próprio teria dito aquilo assim, se fosse há duas semanas, antes de conhecer a Susana.&lt;br /&gt;O Paulo é um colega da imobiliária, com maneiras um bocado impenetráveis. Conheço-o mal e confesso que nunca pensei nele como meu amigo, embora trabalhemos juntos há cinco anos; fizemos vários negócios juntos e muitas vezes almoçamos juntos. Conversamos muito, mas nunca o entendi completamente.&lt;br /&gt;"Tenho um BMW, visto bem, frequento um &lt;em&gt;health club&lt;/em&gt;, evito a palavra chávena. A que classe social pertenço?", perguntei, num tom sarcástico.&lt;br /&gt;O Paulo ficou embaraçado. Corou, pois não gosta que o contrariem. Depois, moveu-se nervosamente na cadeira, compôs a gravata e tentou acalmar-se. Não conseguiu e largou algum fel:&lt;br /&gt;"És da classe média e, por isso, tens horror às elites, embora disfarces bem".&lt;br /&gt;"Tenho horror às elites..." repeti, céptico.&lt;br /&gt;"Sim! No fundo, pensas que os teus valores são superiores aos de pessoas que vês como parasitárias e que desprezas porque achas injusto que sejam elas a desfrutar da boa vida..."&lt;br /&gt;Olhei-o, perplexo. A afirmação revelava repulsa, como se o Paulo me tivesse escondido, até ali, a aversão que sentia por mim. Mas acho que fui hábil. Podia ter-me zangado, mas optei por me rir. Ri, satisfeito, ou antes, fingi rir às gargalhadas. Saiu-me um riso seco, não exactamente idêntico ao natural, mas que permitiu desanuviar a situação. O Paulo acalmara-se. Desculpou-se, disse que brincava, para ver como eu iria reagir.&lt;br /&gt;"Essas coisas não são nada importantes...", acrescentou.&lt;br /&gt;Eu sabia que ele já estava de novo a mentir. Afinal, eu também minto. Sou das classes mais baixas. Mesmo baixas. E disfarço a minha origem todos os dias, porque é isso que esperam de mim...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116032528850698748?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116032528850698748/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116032528850698748' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116032528850698748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116032528850698748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/classes-sociais.html' title='Classes sociais'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116022536899349077</id><published>2006-10-07T13:48:00.000+01:00</published><updated>2006-10-07T13:50:29.750+01:00</updated><title type='text'>Polémica</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Foi a minha primeira polémica na blogosfera. O &lt;a href="http://corta-fitas.blogspot.com"&gt;Pedro Correia &lt;/a&gt;respondeu ao meu post anterior sobre política internacional e verifiquei que estamos de acordo no essencial, embora haja uma discordância: eu não acredito numa América isolacionista, ele acha esse cenário indesejável, mas possível. Gostei desta minha primeira polémica blogosférica e sinto vontade de fazer isto mais vezes. Quanto ao Pedro, tem desconto de 30% aqui no meu cinema...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116022536899349077?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116022536899349077/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116022536899349077' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116022536899349077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116022536899349077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/polmica.html' title='Polémica'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116017487968738294</id><published>2006-10-06T23:42:00.000+01:00</published><updated>2006-10-06T23:47:59.696+01:00</updated><title type='text'>Memória</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2434/3884/1600/marraquexe.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2434/3884/320/marraquexe.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é o aniversário do meu ex-marido. O Tiago faz 46. Deve estar neste momento a comemorar com amigos. É estranho, pensar nele. Mas é mais forte do que eu, sinto ainda uma comoção quando penso nele, apesar do que me fez e não me consigo separar daquela precisa imagem. A que ficou mais fortemente presa à minha memória é uma lembrança dele a olhar para um objecto banal, num quarto banal. Há uma janela lateral que o ilumina e entra um sol mais brilhante do que se pode imaginar; na imagem congelada (como se fosse uma fotografia instantânea) o Tiago olha para qualquer coisa que me escapa agora, num quarto terrivelmente sujo em que dormimos, algures em Marrocos, talvez seja em Marraquexe, mas não tenho a certeza; na minha memória o traço dominante é o cabelo dele, comprido, com uma madeixa a cair-lhe alegremente pela testa, e ele a afastá-la, com um sorriso enorme. Eu tinha lido &lt;em&gt;The Sheltering Sky&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O Céu que nos Protege&lt;/em&gt;, talvez por isso aquele momento se tenha fixado nas minhas memórias dele, a mais forte reminiscência dele ...&lt;br /&gt;...De quinze em quinze dias, o Tiago vem buscar os filhos e, às vezes, sobe até à minha casa. Ele evita fazê-lo, mas às vezes faz isso; sobe e entra no apartamento; dá-me um beijo na face, pergunta-me se está tudo bem comigo; eu quero saber dele, mas tento não perguntar nada; não pergunto com quem anda ou se anda com alguém; talvez agora esteja com ela em algum restaurante, vão erguer os seus copos de vinho e fazer um brinde...&lt;br /&gt;...Fora, ouvia-se todo o rumor do bazar, vozes e gritos de crianças e risos tranquilos; sombras errantes esvoaçando pelos becos; se penso bem nisso, as vozes eram de mulheres e crianças. O Tiago afastou a madeixa de cabelo; estava alourado, do sol, o cabelo parecia trigo, e eu tinha lido &lt;em&gt;The Sheltering Sky&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O Céu que nos Protege&lt;/em&gt;, e acreditara naquela delicadeza imprudente, que havia uma busca da nossa essência além dos corpos, além da paisagem e da secura envolvente; se fosse agora, teria lido também o lado negro das personagens, a perturbação e o fascínio dos abismos, mas não vi nada disso, vi apenas aquela madeixa que ele afastava, o sorriso enorme e isso era, para mim, toda a concentração do infinito...&lt;br /&gt;Ele, às vezes, sobe para buscar os miúdos; nesses fins-de-semana, fico sozinha em casa e percebo como é fundo o poço da solidão. Ele vem buscar os miúdos, mas nunca mais vi aquele gesto simples de afastar a madeixa de cabelo da testa, como se um outro homem habitasse aquele corpo e tivesse esquecido o exacto movimento que me fez saltar o coração naquele distante quarto marroquino, faz mais de dezassete anos, entre rumores de bazar, enquanto a luz trespassava a vidraça... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116017487968738294?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116017487968738294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116017487968738294' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116017487968738294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116017487968738294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/memria.html' title='Memória'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116015313209117495</id><published>2006-10-06T17:45:00.000+01:00</published><updated>2006-10-06T17:46:14.640+01:00</updated><title type='text'>Tédio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O que mais me custa é ficar na barbearia sem clientela. Horas a fio, sem fazer nada. O meu tio desculpa-se, hoje não há ninguém, vou para casa mais cedo, toma conta da loja; e eu fico na seca, a olhar pelos espelhos, na conversa ocasional com alguém que esteja só de passagem, mas que não vai cortar o cabelo. A rotina é a pior coisa da vida, enche-nos de tédio e começa a estrangular-nos devagar. Isto acontece sobretudo nos finais do mês, mas por qualquer razão também está suceder hoje. Muita gente foi de fim-de-semana, para aproveitar a ponte do feriado. A rua está quase vazia.&lt;br /&gt;Canso-me de passear a vista pelas mesmas revistas, vou até à porta da barbearia e em frente está a dona Antónia, na loja de roupa do outro lado da rua, também à porta, encostada, apenas a observar quem passa. Ela é divorciada, mas vive com um rapaz que conheço do bairro, bastante mais novo que eu. Esse tipo nunca fez grande coisa com a vida e, agora, com as responsabilidades da nova família, anda agitado. A Antónia tem três filhos de dois casamentos. Um pedaço de mulher, é o que ela é... Andámos enrolados uma vez... Foi há cinco anos, mas não posso entrar em pormenores. Coisa rápida; ela ainda era uma lasca, na altura; envelheceu um pouco depois de nos separarmos; mas nunca me levou a mal... Um sarilho...Este novo rapaz tem menos vinte anos (é quase da idade do filho mais velho dela) e aquilo é tudo um bocadinho desesperado...&lt;br /&gt;A Antónia vê-me à porta da barbearia e sorri, faz um pequeno gesto de cumprimento, nada de especial. Já passou, aquela febre que tivemos. Não posso dizer que fosse coisa do amor, porque não era; apenas sexo, embora isso não seja assim tão simples, o “apenas” soa a falso, não existe em nenhum caso do mundo... Nunca chegou a parecer situação de vida ou de morte, como acontece numa verdadeira paixão, mas funcionava como uma espécie de jogo, droga dura, sopro de alucinação.&lt;br /&gt;Ela acena-me outra vez. Respondo com um gesto breve, quase sincero, e regresso ao interior da barbearia. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116015313209117495?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116015313209117495/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116015313209117495' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116015313209117495'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116015313209117495'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/tdio.html' title='Tédio'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-116005453471248510</id><published>2006-10-05T14:21:00.000+01:00</published><updated>2006-10-05T14:22:14.720+01:00</updated><title type='text'>Um crime em Teerão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um fanático religioso iraniano, chamado Mustafá, matou à facada o gerente de um cinema de Teerão, ferindo outro funcionário. A polícia diz que era um louco, mas o homem explicou que pretendia eliminar o vício e invocou a lei islâmica, que proíbe as imagens. O Luís Naves conta muitas vezes que presenciou um motim de fundamentalistas islâmicos, numa cidade do Paquistão, e os principais alvos foram os cinemas, onde é exibido um espectáculo que a generalidade das pessoas aprecia, mas que os religiosos abominam.&lt;br /&gt;Às vezes, penso que as paredes deste cinema onde passo tanto tempo estão repletas de fantasmas, construídos a partir dos sonhos e dos pesadelos que aqui mostramos. Como se as emoções pudessem produzir uma substância quase imaterial (invisível a olho nu) que contamina toda a superfície. E à noite, na hora em que reina o silêncio, estes fantasmas tornam-se reais e assombram o lugar. Assim era aquele Mustafá que matou o meu colega em Teerão: aparição e simulacro, o lado concreto de um alvoroço da percepção. Irracional, sobretudo. Um excesso, como toda a ilusão deste lugar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-116005453471248510?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/116005453471248510/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=116005453471248510' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116005453471248510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/116005453471248510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/um-crime-em-teero.html' title='Um crime em Teerão'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115998712975965475</id><published>2006-10-04T19:38:00.000+01:00</published><updated>2006-10-04T19:38:49.766+01:00</updated><title type='text'>Uma visão simplista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O debate sobre política (vejam o post anterior do Jorge) fez-me pensar num episódio recente. Estava a almoçar com uma colega do trabalho, a Mafalda. Ao almoço, vamos a pequenas lojas baratas, de comida leve, ela sempre mais obcecada com o preço. Chovia e o centro comercial encheu-se de gente que se abrigava; o café onde almoçámos ficou confuso, com o barulho e o excesso de agitação. O lugar aquecera e os vidros embaciaram-se, tornando a atmosfera irrespirável.&lt;br /&gt;A Mafalda casou há dois anos, mas o marido perdeu o emprego há seis meses e ainda não arranjou nada. Tinham tudo facilitado e, de repente, a situação tornou-se crítica, porque nenhum deles pode contar com ajuda dos pais. E ela dizia-me, embora sem usar estas palavras, como iria pagar a casa; e que queria um filho, mas devia repensar tudo; e que era uma injustiça o que lhes tombara em cima.&lt;br /&gt;Há pessoas a quem a vida não pode correr bem, por mais que se esforcem. Lembro-me das preocupações que a Mafalda teve quando comprou o apartamento nas Mercês. Era o que podia pagar. Agora, ficou impossível pagar a hipoteca. Para onde vou, perguntava. Somos amigas, mas a Mafalda nunca tinha sido tão franca comigo. Disse-me que escondia de toda a gente a falta de dinheiro e o desespero. Sentia vergonha, o mesmo que sentia o marido dela, sem nada para fazer, impaciente, enervado. A culpa será nossa, perguntava a Mafalda, a chorar.&lt;br /&gt;Impressionou-me. Não sei muito de política, nem compreendo as discussões dos jornais, o mundo teórico em que vivem. Parece-me injusto que um casal que começa a sua vida tenha dificuldades destas. Vejo que se discute muita estratégia, macroeconomia e coisas complicadas, mas as pessoas são geralmente esquecidas. Tudo isto pode parecer simplista, mas no fundo a política devia ser simples, feita menos com a ambição de alguns e mais com a preocupação pelos problemas reais. Sou certamente ingénua. O Jorge gosta de dizer isso, és ingénua, não percebes nada, mas fiquei desesperada pela Mafalda e também pela minha sensação de impotência: de facto, não podia fazer nada por ela, excepto ouvir pacientemente os seus problemas, sem a poder confortar, mesmo tentando esconder que também eu sentia angústia pelo que ouvia...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115998712975965475?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115998712975965475/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115998712975965475' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115998712975965475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115998712975965475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/uma-viso-simplista.html' title='Uma visão simplista'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115996050791808775</id><published>2006-10-04T12:11:00.000+01:00</published><updated>2006-10-04T12:15:07.926+01:00</updated><title type='text'>Reacção a Corta-Fitas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/liberdade.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/400/liberdade.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Escrever na blogosfera implica a leitura de outros blogues e há muito para ler. Um dos meus favoritos é o &lt;a href="http://corta-fitas.blogspot.com"&gt;Corta-Fitas&lt;/a&gt;, que leio regularmente. Por isso escrevo estas linhas: não posso deixar de reagir a um post do Pedro Correia, com o título &lt;em&gt;A Europa em Tempo de Mudança&lt;/em&gt;, que me obriga a escrever pela primeira vez sobre as minhas ideias políticas (sou da direita moderada e pró-europeu).&lt;br /&gt;Parece-me que o post do Pedro (que conheço das andanças dos filmes – ele é um cinéfilo conhecedor) confunde dois aspectos, o Estado Providência europeu  e os interesses estratégicos americanos. A intervenção americana na primeira Guerra Mundial não fez nada pela “defesa dos povos europeus”, ao contrário do que sugere a opinião do Pedro. Não é o caso da Segunda Guerra, que pode ser vista, em termos históricos, como a continuação da primeira, embora seja um pouco mais complicado do que isso. Aliás, os diplomatas americanos são parcialmente culpados pelo mau tratado que abriu caminho ao fascismo. Infelizmente, a Europa do século XX é marcada pelo domínio de regimes totalitários (nazismo, fascismo, comunismo) todos directamente ligados aos erros históricos de Versalhes, à humilhação dos derrotados e aos traumas físicos do conflito. E, neste ponto, concordo com o Pedro: temos de admirar e respeitar os sacrifícios que os EUA fizeram pelos europeus.&lt;br /&gt;Mas também é verdade que a intervenção americana na Europa foi sempre ditada pelos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Os EUA começaram o século XX como potência emergente e acabaram o século como superpotência.&lt;br /&gt;Hoje, a Europa ajuda a financiar o duplo défice orçamental e comercial dos Estados Unidos. A Europa está envolvida em todos os conflitos que a actual administração decidiu lançar ou resolver (Afeganistão, Iraque, Líbano, mas também há tropas europeias no Darfur, Congo, Bósnia). A Europa o melhor aliado estratégico dos Estados Unidos (com o Japão), o principal investidor nos Estados Unidos e tem sido o maior destino de investimento americano. Se, como diz Pedro Correia, os EUA voltassem ao “isolacionismo e abandonassem os povos europeus à sua sorte”, teria de haver um absoluto louco na Casa Branca. Os americanos não têm qualquer interesse no isolamento. Isso seria o mesmo que Roma, no auge do império de Augusto, abandonar todas as suas províncias e auto-limitar-se à península italiana...&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115996050791808775?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115996050791808775/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115996050791808775' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115996050791808775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115996050791808775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/reaco-corta-fitas.html' title='Reacção a Corta-Fitas'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115987372713396291</id><published>2006-10-03T12:07:00.000+01:00</published><updated>2006-10-03T12:41:49.746+01:00</updated><title type='text'>O mar</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/1600/courbet,%20mar.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/400/courbet%2C%20mar.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;Pintura de Gustave Courbet, Mar Tranquilo, 1866&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu estava tranquilo e o mar parecia adormecido. Um dossel de azul deslizava na imensa tarde, com pinceladas de rosa, de amarelos luminosos, entre a cinza de margens mais opacas. Sentei-me num rochedo e olhei aquele infinito, a apreciar cada pormenor, a sentir na face leves bofetadas do vento...&lt;br /&gt;A costa acalmara; de manhã, ao passar naquele mesmo lugar, vira ondas que batiam nas pedras despedaçadas da praia. Sentira o perfume do mar, a distância do horizonte; muito ao fundo, na zona da luz vaga, distinguia-se o perfil de um navio. Depois, quando regressei, parei naquele lugar porque não havia carros. Estacionei junto à estrada e caminhei nas dunas. Até encontrar aquele rochedo que tinha vista um pouco mais alta sobre o mar.&lt;br /&gt;Penso nela todo o tempo. Quando estou a descrever uma casa aos clientes, à procura daquilo que as pessoas querem ouvir, só penso nela. Quando saio à noite, só penso nela. Quando estou sozinho, só penso nela.&lt;br /&gt;Por isso, me sentei neste rochedo à beira do oceano. Porque aqui, por um segundo, consegui não pensar em Susana e na crueza do destino que me colocou na sua rota. Afinal, sei que sou como aquele navio vagamente iluminado, ainda visível, na borda do mundo, que se lamenta nas ondas, seguro a correntes que não controla.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115987372713396291?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115987372713396291/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115987372713396291' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115987372713396291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115987372713396291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/o-mar.html' title='O mar'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115981228191087754</id><published>2006-10-02T18:58:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T22:43:50.713+01:00</updated><title type='text'>A corrosão das almas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Sinto culpa, porque não visito muitas vezes o meu pai. Quando ele saiu de casa, eu tinha 15 anos. Depois do que passámos, quando viemos de Angola, ele nunca mais foi o mesmo. Lembro-me de um homem forte, que admirava, mas quando a nossa vida mudou, o meu pai não passava de uma pessoa quebrada ao meio, já sem vontade e sem futuro. O casamento com a minha mãe aguentou pouco tempo e ele nunca mais encontrou um trabalho decente.&lt;br /&gt;Este domingo, fui vê-lo. Não ia há quase três meses. Vou adiando, porque sei que saio de lá sempre a chorar. Desta vez, nem aguentei meia hora...&lt;br /&gt;A casa fica para além do Cacém, numa espécie de aldeia à beira de uma das estradas de acesso a Sintra. O meu pai vive mal, com uma pensão miserável; e a mulher com quem casou em segundas núpcias é desleixada, não trata da casa. Chama-se Maria e odeia-me; começa com umas cerimónias que me dão vontade de sair dali a correr. A casa deles é de um piso e fica no meio de umas hortas desconjuntadas. Nunca tiveram filhos, por isso vivem sozinhos: ela é amarga, ele parece que está a ficar alcoólico e a perder a noção da realidade.&lt;br /&gt;O meu pai estava sentado numa cadeira de praia, no meio do jardim, uma confusão de arvoredo mal crescido e ervas daninhas; levantara-se vento fresco da serra e as nuvens ameaçavam chuva. Bebera demasiado ao almoço e estava meio tonto, desagradável, a voz pastosa. Aproximei-me, tinha levado uma cadeira comigo, beijei-o na face (ele tinha a barba por fazer, uma camisa cheia de nódoas) e sentei-me perto, à espera das perguntas tradicionais, como estava, como estava a minha mãe, como estavam os netos dele. Mas, desta vez, ficou em silêncio e eu contei-lhe as banalidades sem que ele perguntasse. O meu pai parecia ouvir mas, enfim, com o pensamento em viagem. Então, ficou mais sério, parecia desorientado, estendeu o indicador da mão direita:&lt;br /&gt;“Já fui dono daquilo tudo”, disse ele, apontando em frente, para onde está a ser construído o novo subúrbio. “Toda aquela terra foi roubada”.&lt;br /&gt;A desorientação dele alarmou-me:&lt;br /&gt;“O paizinho devia ir deitar-se”.&lt;br /&gt;“Roubada!”&lt;br /&gt;Depois de uma pausa, começou a erguer-se da cadeira. Envelhecera de repente, parecia imerso numa outra vida, tão fraco que me produziu lágrimas...&lt;br /&gt;“Já fui o maior... Já fui o maior”.&lt;br /&gt;E aquele corpo frágil arrastou-se para dentro de casa, a pele muito branca, o cabelo ralo, camisa suja, os passos fracos, quase apagados.&lt;br /&gt;Ajudámos o meu pai a deitar-se e, pela primeira vez, vi a aflição na cara de Maria. Quando o meu pai adormeceu, regressei ao carro e Maria seguiu-me, como se quisesse fazer alguma confidência. Parecia humilde, tratou-me por filha. Disse-lhe que o meu pai tinha de ir ao médico e que se precisassem de dinheiro, não haveria problema. Ela fez que não com a cabeça, chamou-me Teresa. Despedi-me dela o mais depressa possível e percebi, na rapidez desse adeus, que aquela mulher também amava o meu pai.&lt;br /&gt;Olhei pelo espelho do carro e vi que Maria parecia contemplar, talvez pela primeira vez na sua vida, essa corrosão que o tempo, temível ácido, provoca nos seres humanos: a ferrugem da alma...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115981228191087754?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115981228191087754/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115981228191087754' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115981228191087754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115981228191087754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/corroso-das-almas.html' title='A corrosão das almas'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115980823472344449</id><published>2006-10-02T17:55:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T17:57:14.736+01:00</updated><title type='text'>Uma noite na ópera</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando vejo imigrantes ucranianos no rua, lembro-me da minha própria experiência de emigração. Eles não conhecem ninguém na cidade, vivem mais ou menos isolados, em apartamentos alugados onde se amontoam meia dúzia de cada vez. E poupam cada tostão. No prédio ao lado do meu, há uma dessas "repúblicas" ucranianas. Acho que vivem no apartamento pelo menos uns oito imigrantes. Eles vão e vêm, mudam constantemente. Não fazem mais nada senão trabalhar. Só uma ou duas vezes os vimos no café do Adriano, onde se reúne a malta, e devia ser uma ocasião de festa para eles, porque nunca se misturaram, ficaram tranquilos, a beber cervejas. Depois, pagaram e foram-se embora.&lt;br /&gt;Eu vivi em condições semelhantes, num subúrbio de Paris. E lembro-me muitas vezes de um episódio do meu terceiro ano de França. Arranjara emprego numa fábrica e havia ali outros portugueses. Alugámos em conjunto um apartamento, que ficava a cem francos por cabeça, e partilhámos a vida comunitária. Eu tinha acabado de fazer a tropa, ainda usava velhas calças da farda e as minhas botas, estava sempre a falar de Angra, e por isso chamavam-me "furriel".&lt;br /&gt;Também poupávamos todos os tostões que juntávamos, mas lembro-me de uma excepção a essa regra. O rapaz chama-se António e era muito mais novo do que os outros. Um bocado amalucado, acho eu: a pancada dele era a ópera. Tinha um gravador de cassetes e andava sempre a ouvir óperas antigas no aparelho e cantava excertos, com uma voz de tenor que fracassava pobremente. Mas sabia de cor aquilo. Um dia, o António anunciou solenemente que comprara um bilhetre na ópera de Paris e que no sábado seguinte iria ver o espectáculo. Era uma &lt;em&gt;La Boéme&lt;/em&gt;. Ele deu-se ao luxo de alugar fraque. Apinocou-se todo e saiu ao fim da tarde, com o seu bilhete, o fraque alugado, o cabelo cheio de gel, um ar de quem flutuava. Regressou às duas da manhã, a trautear melodias, de olhos brilhantes, o fraque meio amarrotado, o hálito a cheirar a álcool. E estivemos duas horas a ouvir a descrição da ópera de Paris, do espectáculo, das cantoras, o glamour. E aquilo foi tema de conversa durante vários meses...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115980823472344449?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115980823472344449/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115980823472344449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115980823472344449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115980823472344449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/uma-noite-na-pera.html' title='Uma noite na ópera'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115973090128876424</id><published>2006-10-01T20:13:00.000+01:00</published><updated>2006-10-01T23:42:07.456+01:00</updated><title type='text'>Os homens na lua</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/1600/apollo%2011.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/400/apollo%2011.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A casa da tia Angela ficava a vinte metros da estrada de macadame, junto a um campo lavrado, entre pinhais frondosos. Nas traseiras, escondido de quem passasse, expunha-se o largo poço da mina de onde fora retirada a pedra para construir a casa; mas o buraco parecia maior do que a obra, como se a terra tivesse perdido matéria. A casa, tão antiga, mal se endireitava. O corpo saía da barreira de pedra, à maneira de uma saliência, e os construtores tinham aproveitado o declive brando, cortado em forma de bolo. O chão era tão impenetrável, que as raízes das árvores corriam pela superfície como grossos braços.&lt;br /&gt;Nas semanas de calor abafado, as copas dos pinheiros dançavam ao vento e os ramos estalavam entre si, como numa batalha a fingir, travada entre sombrios soldados estáticos que combatiam, sem parar, usando espadas de madeira. O bailado transmitia-se às folhas dos arbustos e ao ondular dos campos de cereais e à melancolia dos vales. Naquele ano, as ribeiras tinham começado a secar. Nos campos, cercados por ervas daninhas, o milho debruçava-se, cansado pelo sol. Os grilos cantavam em coro com os pássaros e essa era a música da terra sedenta.&lt;br /&gt;A tia nunca casara e, em cada verão, a casa era preenchida com a alegria dos sobrinhos que vinham de Lisboa. A vida de aldeia consistia num sonho infantil: corríamos por todo o lado, fazíamos teatros e caçadas de fingir; saltávamos pelos campos ali à volta e cuidávamos das hortas e dos animais. Mas, naquele ano, as férias foram diferentes. Não consigo ordenar a sequência exacta das memórias, mas lembro-me da chegada dos homens à lua, talvez esteja tudo um pouco misturado, feito de recordações de anos distintos.&lt;br /&gt;Havia uma televisão na aldeia, de um senhor que emigrara para África e regressara com dinheiro, o suficiente para ter um carro e um televisor. Ele convidou a minha tia e ela levou-nos: nessa noite, ficámos acordados até tarde, para vermos aquele extraordinário acontecimento. Mas eu era muito pequenino e adormeci a meio. Acordei apenas quando já tudo tinha acontecido e lembro-me da viagem de regresso, talvez à uma da manhã, ou mais, quando caminhámos, cansados e contentes, de regresso a casa. A aldeia era escura: havia a estrada de macadame, umas luzes espalhadas em torno dela. E tudo o mais era a noite soberana, feita de sombras densas e de ameaças vagas, a tela negra onde a pálida luminosidade da lua pincelara um pequeno caminho de prata... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115973090128876424?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115973090128876424/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115973090128876424' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115973090128876424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115973090128876424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/os-homens-na-lua.html' title='Os homens na lua'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115972667208115570</id><published>2006-10-01T19:16:00.000+01:00</published><updated>2006-10-01T19:17:52.090+01:00</updated><title type='text'>Improvisação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Se um dia o blogger rebentasse, não se perdia nenhuma destas linhas aqui. Dito assim, com brutalidade, poderão os leitores fiéis pensar que não nos esforçamos o suficiente. Mas não é o caso. Este blogue está para a literatura como o jazz para a música erudita. Quando vamos a um concerto ou à ópera, sabemos que todos os músicos são profissionais e que ensaiaram muito. Pagámos o bilhete e somos exigentes. E assim é a literatura em livro: um trabalho profissional que exige progressão, ensaios, rescrita. Leiam este blogue efémero, improvisado, esta experiência, como o testemunho de uma banda de garagem, de músicos amadores ou semiprofissionais que tocam num bar todas as noites. Muitos no público vão ouvindo aquilo distraídos, mas ninguém suspende as conversas, a música mistura-se com o tilintar de copos e o estralejar dos risos. E, no fim, na melhor das hipóteses, talvez fique uma boa sensação na clientela. A conversa estava boa, dirão, o ambiente do bar era porreiro, e a música ao vivo... Como era a música ao vivo, exactamente? &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115972667208115570?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115972667208115570/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115972667208115570' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115972667208115570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115972667208115570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/10/improvisao.html' title='Improvisação'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115961935042806788</id><published>2006-09-30T13:27:00.000+01:00</published><updated>2006-09-30T13:29:10.440+01:00</updated><title type='text'>A Paixão dos Fortes</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/ford2.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/400/ford2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Ontem, uma deliciosa surpresa na RTP Memória, o filme de John Ford A Paixão dos Fortes, My Darling Clementine. Pena a cópia não ser das melhores, mas a noite valeu pela qualidade deste filme, que penso ser uma das obras máximas do cinema.&lt;br /&gt;A Rosinha não conhecia e acho que também ficou impressionada, embora eu nunca consiga saber se diz aquelas coisas para me confortar ou se de facto vê as coisas noutro prisma. Ela gostou mais da personagem Clem, a namorada rejeitada pelo Doc Hollyday, que julgo ser a menos sólida do filme. Já aqui foi escrito que na literatura (e isto é válido para muito do cinema clássico) a mulher certa para casar, como é o caso de Clementine, não é a preferida do realizador. Neste caso, a mulher fatal é Chihuahua, cujo destino se entrelaça tragicamente com o dos homens fortes. Confesso que me sinto mais próximo das contradições de Chihuahua do que das paixões burguesas de Clem, a menos credível das figuras desta fantasia, exactamente porque é exterior à fantasia, vinda do mundo real, completamente à toa naquele mundo de pó, deserto e morte.&lt;br /&gt;Neste filme tão poético, o que verdadeiramente me interessa são os fortes, o Doc e Earp, os seus silêncios, a sua paciência, a espera (é isso, a espera), mas também a pressa de viver. É paradoxal: as emoções vivem contidas e os gestos superficiais são apenas sugeridos, para que não traiam a raiva que trespassa aquelas almas. Os Clanton, naturalmente, são o mero alvo. Uma coisa é evidente: Ford compreende bem as amizades masculinas e este aspecto do filme faz-me lembrar os tempos que passei em Angra, durante a tropa, há vinte anos, onde conheci alguns dos companheiros deste blogue.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115961935042806788?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115961935042806788/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115961935042806788' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115961935042806788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115961935042806788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/paixo-dos-fortes.html' title='A Paixão dos Fortes'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115953532736866720</id><published>2006-09-29T14:07:00.000+01:00</published><updated>2006-09-30T14:56:11.186+01:00</updated><title type='text'>Susana (I)</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/1600/swimming.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3096/3811/400/swimming.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ensinaram-nos que o purgatório era um local horrível onde se podia passar a eternidade, cem anos, diziam. Afinal, percebo que a nossa vida é uma espécie de purgatório e, por vezes, temos relances do paraíso. Não é assim tão mau. (...)&lt;br /&gt;Tive um vislumbre breve e sem aviso prévio, mas deixem-me primeiro falar do Otto, o meu amigo de nome arrevesado. Na realidade, ele é português, mas de mãe alemã, que o baptizou assim, por capricho. Trabalha numa imobiliária associada à nossa e encontramo-nos em muitas situações profissionais. É daquelas pessoas que parecem sempre fintar as dificuldades, ou melhor, nunca toca na lama dos eventos mesquinhos, não por repugnância, mas por pairar num patamar acima, como se voasse, sempre elegante. Por isso me surpreendeu, o convite dele, de passar um fim-de-semana na sua quinta alentejana. Nunca até aí tinha pensado que ele me visse como alguém digno de entrar no santuário do seu círculo íntimo...&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;Havia seis convidados e não vou entrar em pormenores: estava eu, o Otto e a namorada; um outro casal, além de uma rapariga chamada Susana, que chegara sozinha e que todos tratavam com grande delicadeza; nessa tarde, fizemos comidas variadas (tínhamos levado mantimentos que davam para um batalhão) e passámos o tempo na piscina e na cozinha, numa espécie de levitação. E pensei que era finalmente afortunado, por conviver com pessoas de tal perfeição...&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;Na noite de sábado, ficámos até tarde, na conversa. Bebemos muito (vinhos excelentes) e fumámos charutos; com naturalidade, formaram-se três pares. Susana sentara-se ao meu lado e parecia envolver-me com a sua amável solicitude. Senti-me importante e não consegui parar de falar sobre mim. Pelo carro que ela trouxera, sabia que tinha dinheiro, e vestia bem, também, um vestido decotado e curto, que evidenciava um corpo magnífico. E o que mais me impressionava era a delicadeza da pele dela e dos gestos, a beleza pura e suave, a óbvia inteligência com que orientava a minha devoção. Sim, acho que posso usar essa palavra, pois começara a sentir por Susana uma poderosa atracção, até uma ligação, que me fez mais confiante e ousado, que me fez contar histórias sobre mim que exageravam certos aspectos. Depois, estávamos perto e sentíamos essa proximidade dos corpos, o simples apelo físico... Comecei a acariciá-la e, de súbito, percebemos que os nossos companheiros tinham debandado, que estávamos sozinhos, rodeados de penumbra e silêncio...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115953532736866720?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115953532736866720/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115953532736866720' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953532736866720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953532736866720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/susana-i_29.html' title='Susana (I)'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115953465171952830</id><published>2006-09-29T13:56:00.000+01:00</published><updated>2006-09-29T13:57:31.723+01:00</updated><title type='text'>Susana (II)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A liberdade é uma sensação efémera que tentamos renovar cada dia. Na manhã seguinte, senti os sorrisos cúmplices do Otto e mesmo dos outros, que pareciam partilhar o segredo de verem a felicidade em olhos alheios.&lt;br /&gt;Passei a manhã assim, ainda numa órbita alta, desatento à paisagem, à temperatura da água, a outros pormenores que fossem exteriores ao corpo dela. Costuma dizer-se que alguém assim está nas nuvens, ou seja, num estado atmosférico e leve, como que viajando num balão silencioso, que o arrasta para paisagens insólitas, mas também ao sabor do vento, pois as nuvens navegam sem rumo nesse oceano de ar. Alheara-me de tudo, como acontece nos sonhos. Ignorante do passar do tempo...&lt;br /&gt;A realidade tombou quando estava no conforto da piscina, a flutuar sem peso. Susana estava a meu lado, segura a um varão; os cabelos longos formavam um leque em torno da cabeça; parecia um lenço de seda a brilhar ao sol.&lt;br /&gt;“Podia ficar aqui uma imensidão...”, disse eu.&lt;br /&gt;Ela riu-se, com uma gargalhada rápida, que me pareceu quase desdenhosa:&lt;br /&gt;“Fica aqui! Eu volto para Lisboa daqui a duas horas. Tenho um compromisso esta noite”.&lt;br /&gt;De súbito, tudo ruía. Percebi que falara apenas sobre mim, que ela ouvira pensativamente tudo o que eu dissera, mas que me escapara o essencial. De súbito, queria saber tudo sobre ela, o que fazia, quem era de facto, o que me iria revelar. Percebi, com um calafrio, que tentava meter um quadrado num círculo ou extrair a água de uma garrafa, sem paciência para tolerar o gargalo estreito. Não havia tempo para que ela me explicasse...&lt;br /&gt;“Mas temos que nos encontrar esta noite”, balbuciei, quase em pânico.&lt;br /&gt;A água da piscina agitou-se. Susana largara o varão e estendera-se, num mergulho suave; deslizou debaixo de água e emergiu mais à frente, a certa distância, sorrindo:&lt;br /&gt;“És um querido, Daniel”, disse ela. “Mas, agora, não é possível...”&lt;br /&gt;Não consegui ter mais um minuto de privacidade com Susana e o tempo foi passando, até se consumar a sentença. Ela entrou no carro e partiu. Eu tinha de levar o casal amigo (foi uma imposição do anfitrião) e vi-me obrigado a esperar por eles mais uma hora e outra ainda. Cheguei a Lisboa já de noite...&lt;br /&gt;(...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115953465171952830?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115953465171952830/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115953465171952830' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953465171952830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953465171952830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/susana-ii.html' title='Susana (II)'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115953458999626564</id><published>2006-09-29T13:55:00.000+01:00</published><updated>2006-09-29T13:56:30.006+01:00</updated><title type='text'>Susana (III)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Desconhecia tudo sobre Susana, mas não me conformei com o mistério.&lt;br /&gt;A separação afectara-me. Na semana seguinte, estava desesperado e telefonei ao Otto, que me falou com familiaridade. Marcámos um encontro de negócios, mas não escondi o verdadeiro motivo do meu interesse. Tive dificuldade em suportar a impaciência. Iria confrontar Otto: precisava que ele me desse o contacto de Susana. E foi isso que fiz, no bar onde tínhamos combinado o encontro, ainda estávamos de pé à procura de mesa.&lt;br /&gt;“Acalma-te lá, pá”, exclamou Otto, alarmado com a minha excitação: “Dou-te o contacto dela, mas não te aconselho a que a procures”.&lt;br /&gt;Não esperava que ele respondesse aquilo.&lt;br /&gt;“Queres dizer que não sou suficientemente fino para ela?”&lt;br /&gt;“Não te ofendas, não é o que tu pensas”.&lt;br /&gt;A pausa estava repleta de sons: o piano do bar, conversas murmuradas, o tilintar de copos e talheres. O meu silêncio obrigou-o a continuar:&lt;br /&gt;“Ela ganha a vida assim, associa-se a homens ricos... Neste momento, é a amante de um empresário, um tipo cheio de cacau. Conheci a Susana há uns anos e tivemos uma ligação na altura. Ficámos, como dizer... camaradas... O tipo dela foi numa viagem de negócios e convidei-a a passar um fim-de-semana agradável...”&lt;br /&gt;Eu ficara em brasa, quase em fúria, mas não falei. Foi ele quem prosseguiu:&lt;br /&gt;“Não fiques assim, aquilo não é para ti, só tens que a esquecer...”&lt;br /&gt;Não me contive:&lt;br /&gt;“Então, ela era um presente que tu me oferecias...”&lt;br /&gt;“Estás enganado, Daniel. O amante da Susana é um tipo horrível. Só visto. Ela é minha amiga e tu é que eras o presente...”&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115953458999626564?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115953458999626564/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115953458999626564' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953458999626564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115953458999626564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/susana-iii.html' title='Susana (III)'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115947425183246331</id><published>2006-09-28T21:09:00.000+01:00</published><updated>2006-09-28T21:10:51.843+01:00</updated><title type='text'>Um filme</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A reposição de filmes clássicos não é um bom negócio, mas decidi passar velhas películas e trazer estudantes às sessões. Uma espécie de cinemateca privada e sem meios. Ontem, passei &lt;em&gt;Runaway Train&lt;/em&gt;, de Andrei Konchalovski, filme de 1985, que vira há anos e que me impressionou na altura. Sentei-me na última fila, sem imaginar a profunda emoção que iria viver. A sala estava um bocado turbulenta (os estudantes já não sabem ver filmes pelo gozo da arte) e o início engana um pouco, com toda a violência e as cenas de fuga. Mas, a pouco e pouco, o público envolveu-se naquela paisagem desolada e no desespero frenético das personagens. Então, surgiu a cena que julgo ser uma dos maiores momentos da história do cinema: presos no seu destino, os fugitivos envolvem-se numa discussão violenta, além dos limites; a intrusa (a ferroviária civil) é empurrada com brutalidade e diz ao fugitivo que ele parece um animal; e este cospe, de volta, uma tremenda frase “pior, um humano”. E, então, quando se eleva a música fora deste mundo, aquelas figuras presas na sua fatalidade descobrem a redenção. E eu fiquei ali esmagado por instantes, alheio à minha própria consciência, de súbito transportado para um universo que me reduzia ao puro assombro. Este filme esquecido toca nos elementos mais profundos da alma e da condição humana. Não duvido que dentro de 50 anos, quando alguém escolher as 20 obras-primas do cinema, esta será uma delas. E se o mundo esquecer um filme assim, então é o mundo que perde.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115947425183246331?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115947425183246331/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115947425183246331' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115947425183246331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115947425183246331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/um-filme.html' title='Um filme'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115945379223899179</id><published>2006-09-28T15:28:00.000+01:00</published><updated>2006-09-28T15:29:52.246+01:00</updated><title type='text'>A regra</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A regra não está escrita, mas tenho de fazer o dobro do esforço que ele faz, para obter o mesmo resultado. E, depois do trabalho, quando vou para casa, tenho responsabilidades que o meu colega, o Francisco, não imagina: tratar das crianças e da casa. A simples tarefa de fazer o jantar transforma-se por vezes num pesadelo, porque quando saio do serviço, já as lojas estão fechadas (depois, tenho de carregar os sacos, não posso esquecer-me de pagar as contas, e o dinheiro que nunca chega). Para não mencionar a minha preocupação, quando tenho de prolongar o trabalho e não tenho como resolver a vida dos meus filhos...&lt;br /&gt;No escritório, o ambiente não é de competição feroz, ou algo do género, mas os obstáculos para a carreira das mulheres têm geralmente forma subtil. Depois de vir de férias, foram distribuídos alguns dos assuntos mais importantes do próximo ano e, quando disse ao meu chefe que me interessava um dos dossier em particular, ele ficou com uma expressão comprometida: “Desculpa, Teresa, mas entreguei esse trabalho ao Francisco. Devia ter-te informado, mas esqueci-me”, disse ele. Eu ia ripostar que tenho mais experiência do que o Francisco, mas percebi que ele iria interpretar o meu comentário como uma crítica directa. E podia fazer essa crítica. “Porque é que não me escolheste?”, perguntei, e a minha voz deve ter traído ansiedade e desilusão. O meu chefe quase gaguejou, fez uma introdução hesitante sobre a quantidade de assuntos importantes que reservara para mim, depois revelou-se: “Como tens as crianças, pensei que não pudesses dedicar tanto tempo a...” e ficou a meio da frase.&lt;br /&gt;Deu-me vontade de chorar, embora esteja habituada a injustiças. Sei que a máquina tem ritmos inelutáveis, mas também me parece que os homens não se apercebem: se esta história se passasse com a mulher dele, o meu chefe acharia tratar-se de um tremendo abuso. No fundo, são todos boas pessoas, não fazem por mal. Mas nós temos de ser muito melhores do que eles, para arrancarmos o mesmo na profissão. Ah! E é proibido perder a beleza...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115945379223899179?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115945379223899179/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115945379223899179' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115945379223899179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115945379223899179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/regra.html' title='A regra'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115938375735653839</id><published>2006-09-27T20:02:00.000+01:00</published><updated>2006-09-27T20:05:58.580+01:00</updated><title type='text'>O claustro abandonado</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/1600/convento.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4467/3818/400/convento.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não muito longe da casa dos meus sogros, há um velho convento, parcialmente abandonado. Tem a fachada em razoável estado e o portão impede a entrada de estranhos. Mas, na parte em má condição (ali não sobreviveu o passeio público, a estrada de asfalto está colada à parede) é possível saltar o muro baixo e entrar num dos claustros. No domingo, depois de almoço, fomos passear nas redondezas e, por estranho sortilégio, fomos atraídos pelo velho convento. Perdemos a noção dos barulhos humanos, pois não passavam carros e as casas próximas estavam em silêncio, como que esvaziadas de pensamentos. O vento fazia murmurar o eucaliptal que rodeia o vasto edifício de pedra (chovera de manhã, por isso a terra estava fresca e largava um cheiro denso). Saltámos o muro e entrámos no claustro abandonado. A Rosinha saltou primeiro, eu tive dificuldade em segui-la. Habituei-me devagar ao cenário: a erva cobria a lajes húmidas, que uma sombra de séculos esfriara com a penumbra da morte. Os arcos solenes suportavam dois andares de fileiras de janelas bordadas a granito duro. Os telhados pareciam mantos pesados e, por cima, a crescente cobertura cinza das nuvens, ameaçando trovoada.&lt;br /&gt;De súbito, num impulso, a Rosinha encostara-se a uma coluna e segurou-me com firmeza, de encontro ao corpo dela:&lt;br /&gt;“Como se eu fosse uma freira”, disse ela, a rir-se. “E já visto de preto”. E beijou-me assim. Só lhe faltava o véu, no meio daquela atmosfera mística. Lembrei-me dos livros do período romântico, não sei porquê, e fiquei ali a flutuar, a sentir o corpo da minha mulher, nessa espécie de selvagem dominação dos sentidos, zumbindo, devoto, a ouvir o frenesim dos pássaros e a conversa das árvores na brisa forte, uma canção de folhas, como se fossem sinos imaginários.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115938375735653839?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115938375735653839/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115938375735653839' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115938375735653839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115938375735653839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-claustro-abandonado.html' title='O claustro abandonado'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115936074098709323</id><published>2006-09-27T13:38:00.000+01:00</published><updated>2006-09-27T13:39:00.996+01:00</updated><title type='text'>A quinta</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Neste fim-de-semana, eu o Jorge fomos até casa dos meus pais, em Figueiró, perto de Pombal. Partimos no meu Opel Corsa: o Jorge não gosta de guiar e está sempre a dizer que o carro é meu. Segui pela estrada velha, o que representa um desvio, mas gosto de subir por ali, porque paramos num restaurante em Tomar, onde almoçamos.&lt;br /&gt;A casa dos meus pais fica quase no exterior da vila, numa vivenda com um grande terreno. Atrás, existe uma horta, um grande tanque de rega e, depois, o vasto olival, que se prolonga até à floresta, mais ao fundo. Ao longo da estrada, para quem descer na direcção da barragem, há ainda casas e quintas isoladas, mas vão rareando quando nos aproximamos do velho cemitério. A vila em si não tem interesse para os forasteiros. É pequena e pouco desenvolvida. Havia duas grandes fábricas, mas fecharam, por isso também já não se encontram empregos fora da agricultura. Os meus pais são ambos professores primários e o meu pai chegou a ser vice-presidente da câmara municipal, numa altura em que se interessou pela política. Agora, está reformado. Ocupa o tempo a tratar da quinta, sempre entretido com pequenas coisas.&lt;br /&gt;Vivi em Figueiró durante toda a minha infância (sou filha única) e saí de lá aos 17 anos, para estudar em Coimbra. Depois, pedi transferência para a universidade de Lisboa, onde acabei o curso. Sempre quis regressar, mas só em Lisboa encontrei emprego. Então, conheci o Jorge. Enfim, todos os meses vamos um fim-de-semana ver os meus pais e, em certas ocasiões, conseguimos prolongar mais um dia ou dois, mas isso nunca se compara às férias de Natal e de Verão. O Jorge resmunga, que vamos sempre para o mesmo sítio, mas dá-se bem com os dois velhotes e gosta da cozinha da minha mãe. Leva livros, escolhe um sítio calmo e lê uma tarde inteira. Adoro estes dias e também gosto de ficar sozinha. Gosto de passear pela propriedade e imaginar que sou agricultora, a sentir o chão de pedra, o cheiro da terra, o solo pobre, mas apesar de tudo fértil, os riachos da rega e o voo dos pássaros. O vento, ali, respira de outra forma e as árvores parecem dançar todas juntas, como se aquilo fosse um sonho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115936074098709323?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115936074098709323/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115936074098709323' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115936074098709323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115936074098709323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/quinta.html' title='A quinta'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115929136233336732</id><published>2006-09-26T18:21:00.000+01:00</published><updated>2006-09-26T18:22:42.343+01:00</updated><title type='text'>A barbearia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A barbearia não é muito grande nem tem demasiada clientela. Estou aqui há dois anos, depois de muitos acidentes de percurso: já escrevi neste blogue que emigrei para França em 86 (vivi lá três anos) e tenciono contar mais histórias dessas minhas aventuras; depois, tive outros empregos, andei de um lado para o outro, um ano no Algarve, dois de pedreiro, uma pequena incursão em África (sim, não exagero); quando voltei, tinha poupanças e comprei um apartamento perto da casa dos meus pais. Como a casa não tem hipoteca, não pago renda e não preciso de salários gigantescos. Mas não me convinha andar desempregado, como foi o caso.&lt;br /&gt;O meu tio safou-me nessa altura, disse que precisava de um ajudante e eu estava disponível. Aceitei, até encontrar outra coisa. Agora, acho que estou preso a esta profissão: ninguém quer trabalhadores com mais de 40 anos, por isso, as perspectivas não são famosas. Talvez um dia inicie um negócio meu.&lt;br /&gt;O meu tio tem 60 anos. É o irmão mais novo da minha mãe, que já morreu. Chama-se Ernesto e é popular no bairro (chama-se bairro J. Pimenta, que era o construtor). A popularidade do meu tio é excelente para o negócio, porque atrai clientes. Há pessoas que cortam aqui o cabelo desde o início da loja. São mais de 30 anos de actividade, desde que o tal J. Pimenta construiu os primeiros prédios nesta zona.&lt;br /&gt;A barbearia é pequena, tem quatro velhas cadeiras de barbeiro, grandes espelhos. Igual a tantas outras por este país. São estabelecimentos a que não se dá grande importância, mas quase todos os homens das redondezas passam por aqui. Sentam-se, ponho as toalhas à volta do pescoço, vou cortando os cabelos (novos, velhos, ricos e pobres) e ouço-os falar. Trato-os pelo primeiro nome e sei muitos dos seus segredos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115929136233336732?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115929136233336732/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115929136233336732' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115929136233336732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115929136233336732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/barbearia.html' title='A barbearia'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115920243752341218</id><published>2006-09-25T17:38:00.000+01:00</published><updated>2006-09-25T17:42:36.223+01:00</updated><title type='text'>Da praxe</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;Para chegar ao serviço, caminho algumas centenas de metros ao longo do muro de uma universidade. Hoje, cumpri essa rotina e estranhei algo de diferente. Devia estar distraída, porque só quase no final me apercebi do ritmo bizarro: dezenas de miúdos gritavam, numa espécie de ordem unida. De súbito, compreendi, eram as praxes académicas, e prossegui o meu caminho. Só depois, quando estava a chegar quase ao fundo da rua, dei conta da desordem de emoções que me assaltava. Os gritos fizeram-me lembrar o meu passado e, em simultâneo, pensei nos meus filhos. Foi estranho e perturbador.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;Ouvi aquele género de canções marciais em meados dos anos 80, quando estive em Angra. O barulho da parada, ao longe, fazia-me pensar no Jorge e no que ele estaria a fazer. Eram brincadeiras semelhantes a estas e o meu amigo ocupava-se daqueles disparates, e todos os outros amigos. Depois, à noite, quando nos encontrávamos, tinha a sensação de que eles formavam um grupo deslocado. Aquela guerra em paz não fazia sentido, mas juntou-nos durante algum tempo, o exacto tempo de um sonho que ainda hoje, passados vinte anos, me ocorre muitas vezes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;Na altura, trabalhava para o governo regional açoriano. Foi um bom início de carreira e regressei a Lisboa ao fim de três anos. Nunca mais encontrei o Jorge. Depois casei, tive dois filhos, divorciei-me. Ou antes, ele divorciou-se de mim. Saiu de casa. E agora, quando olho para trás, acho que o mais humilhante foi não ter existido qualquer razão para ele se ir embora. Simplesmente saiu, nem sequer me trocou por outra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;Tinha ficado com o apelido dele, não mudei porque era uma complicação. Por isso, chamo-me Teresa Pires, mas não sou Pires coisa nenhuma. Quando o meu marido nos abandonou, o David tinha dois anos e a Sara quatro. O meu filho tem agora catorze, a minha filha dezasseis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;E foi neles que pensei quando vi as horríveis praxes académicas. Em breve, terão de viver aquilo e sinto que talvez não estejam preparados para enfrentar a crueldade e a estupidez dos outros. Tentei educá-los com justiça e tremo em cada dia, só de pensar no que terei feito de errado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:85%;"&gt;Ao passar pelo muro da universidade, ao ver e ouvir o triste espectáculo daqueles que serão a nossa elite do futuro, pensei no que estaremos a fazer de errado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115920243752341218?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115920243752341218/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115920243752341218' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115920243752341218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115920243752341218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/da-praxe.html' title='Da praxe'/><author><name>Teresa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00081957254288953357</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115918077710898058</id><published>2006-09-25T11:37:00.000+01:00</published><updated>2006-09-25T11:39:37.116+01:00</updated><title type='text'>Eu, Cláudio</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/1600/claudius.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5550/3812/320/claudius.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nunca me habituei a ler, mas sempre tive fixação pelos romanos. Quando era pequeno, fui ver uma escavação arqueológica perto da aldeia do meu pai, onde estávamos a passar férias. O sítio ficava no topo de uma colina, na zona onde o rio Alva passa através de montanhas espessas, produzindo desfiladeiros ideais para fortificações.&lt;br /&gt;Os arqueólogos tinham descoberto uma povoação mais antiga, com seis mil anos, e uma fortaleza romana quase no mesmo local. Certo dia, fui com o meu pai e o padre da aldeia ver a escavação e andámos por ali um dia inteiro, a observar os trabalhos e a conversar com os estudantes que participavam e que estavam instalados num convento das redondezas. Depois desta experiência, sempre adorei história, na escola.&lt;br /&gt;Há mais de vinte anos, a televisão passou uma série da BBC, &lt;em&gt;Eu, Cláudio&lt;/em&gt;, sobre o imperador romano Cláudio e adorei cada imagem. Não perdi nenhum episódio.&lt;br /&gt;Não costumo comprar livros, mas no outro dia comprei uma tradução do livro original, escrito por Robert Graves. Acho que nunca me tinha acontecido assim: comecei a ler e não consegui parar mais, comovido com aquele homem que tenta sobreviver no meio da loucura e da maldade. Não tenho qualquer poder, não coxeio e não gaguejo, mas identifico-me com este Cláudio, o imperador infeliz, o homem solitário que tenta fazer o bem escondendo cada gesto atrás de uma personagem que os outros acham simplesmente tola. Deformando a sua humanidade, aceitando a sua humilhação, Cláudio constrói uma fortaleza mental que Graves, como se fosse arqueólogo, escava com os utensílios da imaginação. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115918077710898058?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115918077710898058/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115918077710898058' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115918077710898058'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115918077710898058'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/eu-cludio.html' title='Eu, Cláudio'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115917888142668229</id><published>2006-09-25T11:07:00.000+01:00</published><updated>2006-09-25T11:08:01.436+01:00</updated><title type='text'>A geração dos anos 80</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sempre pensei que as pessoas da minha idade tinham um problema insolúvel: a geração que nos precedeu começou a viver mais cedo; a posterior, parece teimar em prolongar a adolescência. Os mais velhos do que nós dez anos tinham pouco mais de vinte quando tudo mudou à sua volta; a revolução transformara a sociedade e eles foram levados nessa vertigem. Nós, pelo contrário, assistimos a tudo, mas nunca participámos. Quero dizer, os que nasceram no início dos anos 60, como é o caso de alguns que aqui escrevem, eram demasiado jovens quando Portugal atravessou um período de viragem de mentalidade quase sem precedentes na história do país. Quando ficámos adultos, quando chegámos ao mercado de trabalho, os lugares cruciais estavam nas mãos de pessoas apenas dez anos mais velhas, que tinham vivido tudo demasiado depressa.&lt;br /&gt;Mas a modernização de Portugal e a sua abertura ao exterior (que parte do País parece ainda não ter compreendido, a ponto de rejeitar o que se tornou inescapável) implicou novas oportunidades para a classe média ascendente, um ambiente mais competitivo, que parte da geração anterior não suportou. Os que são mais novos estão bem equipados para o mercado de trabalho, mas já não beneficiam das oportunidades que nós tivemos. Nos lugares de decisão, o mercado está outra vez a fechar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115917888142668229?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115917888142668229/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115917888142668229' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115917888142668229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115917888142668229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/gerao-dos-anos-80.html' title='A geração dos anos 80'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115912144442613899</id><published>2006-09-24T19:05:00.000+01:00</published><updated>2006-09-24T19:10:44.436+01:00</updated><title type='text'>Excerto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fiquei a pensar na história dos diários de Julien Green, que o Luís Naves mencionou, num post mais abaixo. Sempre tive a mania de escrever diários, embora nunca tenha sido regular. Lembras-te, Luís? Quando estivemos em Angra, na tropa, há vinte anos, mostrei-te os pequenos cadernos que tinha escrito e tu ficaste tão impressionado... Ainda recordo o que disseste: "Isso só funciona se escreveres a verdade e escrever a verdade é impossível, sobretudo quando falamos das pessoas que nos amam". É por isso que os diários não emigram para a blogosfera. Se assim fosse, eu podia publicar aqui pedaços do meu diário. Excertos como este, que escrevi ontem:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ela chama-se Rosa, mas chamo-lhe Rosinha. Será ternura ou uma forma que a diminui? Não posso viver sem ela. Mas, sabendo isso, também não posso viver com ela, e não é por vontade de lhe ser desagradável, não. Quando a faço sofrer, sabendo que o faço, sem possibilidade de me conter, faço-o por um impulso de me magoar a mim próprio, de me irritar, de me beliscar, pois que o coração tem destas discórdias. Perdi a minha antiga alegria, estou em transição para outro estado, sem saber bem se me afundo na tristeza ou se, finalmente, aprendo a estar com ela. Olhando para trás, para as mulheres que amei, percebo que nunca quis dizer-lhes (confessar-lhes) isso mesmo, que estava tão viciado naquele amor, que tinha de me libertar, antes de sufocar nele. Quero dizer, a droga mata (sei isso tão bem) e a única hipótese de escaparmos a essa lógica é odiarmos profundamente o que nos arrasta, o que nos faz avançar na vida até ao fim, a mola dos nossos passos, ou seja, neste caso, a Rosinha, que me preenche todos os instantes, que me ocupa todos os sentidos, que me faz chorar de raiva quando estou sozinho, que me consome de desejo, que me faz arder de arrepios..."&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;E mais não transcrevo, pois continua no mesmo tom...&lt;br /&gt;Lembras-te, Luís, quando rompi com a Teresa, em Angra? Quando regressámos, no avião, tu quiseste saber o que tinha sido dito. E contei-te uma parte. O relato que fizeste no teu romance é exacto, mas faltava compreenderes que não se tratou exactamente de uma desistência, mas sim de uma fuga. Não me moveu a indiferença, mas a cobardia. E o mesmo se passa agora com a Rosa...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115912144442613899?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115912144442613899/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115912144442613899' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115912144442613899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115912144442613899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/excerto.html' title='Excerto'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115909916349442044</id><published>2006-09-24T12:56:00.000+01:00</published><updated>2006-09-24T12:59:23.503+01:00</updated><title type='text'>O rapaz do pijama</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um dos mais engraçados cromos que conheci na minha vida foi o rapaz que vestia pijama. Nas primeiras semanas de tropa, quando fomos para Mafra, ninguém reparou naquela figura singular, óculos, ligeira gaguez, quase sempre calado. Parece que era um craque em matemática, mas naquele ambiente não lhe servia de muito. Nos anos 80, a tropa ainda era obrigatória, mas o exército não aceitava toda a gente. Não sei que penitência ele estaria a pagar, mas sei que não era daquele mundo.&lt;br /&gt;O tipo chamava-se Fernando, se não me engano, e podia ter passado discretamente por aquela perda de tempo, se não fosse a circunstância de vestir pijama: um pijama às riscas, que ele dobrava com extremo cuidado todas as manhãs, colocando-o depois no seu cacifo, na prateleira central, à altura dos olhos, como se aquilo não fosse de facto um pijama, mas o colete de salvação, com o qual contava para evitar o afogamento...&lt;br /&gt;O cacifo dele era um modelo de arrumação: a escova de dentes num pequeno copo de plástico, o alinhamento perfeito de todos os objectos inúteis, que se referiam a uma vida anterior, como se ali pudesse sobreviver, no silêncio e solidão, uma outra existência proibida.&lt;br /&gt;Estávamos no inverno, mas todos ríamos daquele soldado de pijama, que evitava despir-se em público, com medo da própria nudez, ou até com medo da nudez dos outros, não faço ideia.&lt;br /&gt;E, todas as noites, sob as abóbadas frias do velho convento, quando a sombra inundava a caserna, víamos um fantasma a escapar-se para as casas de banho, pijama às riscas, ridículo, sozinho e furtivo.&lt;br /&gt;E, numa ocasião, não resistimos a pregar-lhe uma partida. Alguém escondeu o pijama e, quando regressámos da instrução, cansados e sujos, ele abriu o cacifo e nada. Vazio. Toda a gente ria do Fernando, e começámos a ficar mais abruptos com ele, a rir na cara dele, que percebera tudo e, sob a pressão, perdera a tampa, muito vermelho. O que querem de mim, dizia ele, e um dos rapazes mais afoitos gozava, o meu pijaminha, o meu pijaminha, a imitar um choro de bebé. Então, apareceu o Cláudio, sim, o nosso Cláudio Silva. Deixem o meu amigo em paz, disse o Cláudio, num tom de voz que não deixava dúvidas. Os rufiões dispersaram, ainda no gozo, mas se tivesse havido porrada, eu estaria com o Cláudio.&lt;br /&gt;Até ao fim da instrução, sem ser incomodado, o Fernando usou o seu pijaminha, de certeza a sonhar com teoremas. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115909916349442044?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115909916349442044/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115909916349442044' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115909916349442044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115909916349442044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-rapaz-do-pijama.html' title='O rapaz do pijama'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115902326580299421</id><published>2006-09-23T15:50:00.000+01:00</published><updated>2006-09-23T15:54:25.810+01:00</updated><title type='text'>O diário de Julien Green</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/1600/green.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/8019/1840/320/green.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Descobri, com grande prazer, textos em jornais franceses sobre o &lt;em&gt;Diário&lt;/em&gt; do escritor Julien Green (1900-1998), autor de dezenas de volumes de conto, romance, novela ou teatro, em língua inglesa e francesa. Pacientemente, quase desde o início da sua carreira literária, Green foi escrevendo o seu diário pessoal. A obra cobre 80 anos, tem mais de 20 volumes e os críticos dizem que é magnífica. Desde o início, o autor promete ser verdadeiro e sincero. E alguém explicava que havia dois Julien Green: o que escrevia de manhã, ocupado em romances; e outro, que preferia escrever depois do jantar, o do diário. Impressionou-me ler sobre este autor. Tinha mau feitio, o que me agrada, e uma persistência espantosa. Muitos grandes escritores escreveram diários, género que também tem seguidores em Portugal (José Saramago e Vergílio Ferreira, por exemplo). Mas parece, entretanto, que a forma do diário estará a emigrar para a blogosfera.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115902326580299421?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115902326580299421/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115902326580299421' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115902326580299421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115902326580299421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-dirio-de-julien-green.html' title='O diário de Julien Green'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115901833322940659</id><published>2006-09-23T14:31:00.000+01:00</published><updated>2006-09-23T14:32:13.236+01:00</updated><title type='text'>Haja alguém que me explique</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quem vier do centro da Amadora a pé, não passa pelo café do Adriano. Quem conhecer bem o bairro, sabe que aquela rua é excelente para um café popular. Não passam demasiados carros e o sítio é pacato.&lt;br /&gt;O Adriano foi jogador de futebol (amador, mas chegou a jogar na segunda divisão) e vê-se na maneira como anda. Tem cinquenta e tal anos e coxeia das dores nos joelhos, que às vezes lhe incham até ficarem deformados. Foi da porrada que levou.&lt;br /&gt;Ontem, fui ver o jogo do Benfica no café do Adriano. Não tenho televisão codificada em casa.&lt;br /&gt;Estávamos ainda a ganhar um a zero quando apareceu o Toninho, que foi meu colega de escola primária. Somos parecidos, nunca fizemos nada de especial. Ele é empregado numa loja de fotocópias perto da barbearia do meu tio.&lt;br /&gt;Ontem, o Toninho trazia uma fotografia antiga. Olhá pra qui, disse ele. A velha fotografia estava um pouco desfocada, com quatro rapazes jovens (eu, o Toninho e outros dois, que já não vivem aqui no bairro). Que é feito do Zé, perguntei. É professor, em Bragança, disse o Toninho, a acrescentar que era suposição sua e que o Zé estava bem da última vez que tinham falado. E quando foi isso? Há uns anos, ainda não estava casado, portanto, foi há mais de seis anos.&lt;br /&gt;O jogo estava no fim, nos descontos, e foi nessa altura que o Benfica levou o golo do empate. Haja alguém que me explique porque carga de água levamos tantos golos nos últimos minutos.&lt;br /&gt;Dás azar, tu, disse eu para o Toninho. Estava na minha sexta cerveja, um bocadinho tocado, chateado com aquela nabice toda...&lt;br /&gt;Pois é, reconheceu o meu amigo, dou um azar do caraças. Deito tudo a perder no último minuto...&lt;br /&gt;É preciso aguentar os noventa e o prolongamento, suavizei, alarmado com o tom pessoal que ele usara.&lt;br /&gt;Daí a um bocado, saímos juntos do café do Adriano. Já passava das onze. A noite fresca, as ruas mal iluminadas. Só nessa altura percebi que o meu amigo estava ainda mais bêbado do que eu. Deixei-o no prédio dele.&lt;br /&gt;Dou azar, sim senhor, despediu-se o Toninho, um azar fodido. E, depois, segurou-se aos meus ombros, com ar sério, bafo a álcool, e ainda disse: a história da minha vida, foda-se, até quase ao fim parece que estou a ganhar e, de súbito, no último minuto, tudo se desfaz.&lt;br /&gt;Haja alguém que me explique, pensei.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115901833322940659?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115901833322940659/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115901833322940659' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115901833322940659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115901833322940659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/haja-algum-que-me-explique.html' title='Haja alguém que me explique'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115892300365960547</id><published>2006-09-22T12:02:00.000+01:00</published><updated>2006-09-22T12:03:23.680+01:00</updated><title type='text'>Lamúrias</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O Jorge diz que eu passo o tempo em lamúrias. Ele passa o tempo a criticar-me, embora por vezes perceba que foi demasiado longe, quando estou à beira das lágrimas e começo a fazer um esforço imenso para conter a minha raiva. Calo-me, claro, fico a olhar para ele sem pensar em mais nada. Porque vestes sempre de preto? Pareces uma viúva. É uma das deixas favoritas do Jorge.&lt;br /&gt;Chamo-me Rosinha e tenho 29 anos. Vivo com o Jorge porque ele não quer casar, diz que não tem pachorra para cerimónias, mas isto é uma desculpa de mau pagador, pois o que ele não quer é um compromisso que lhe dê trabalho.&lt;br /&gt;Ele está a engordar e a ficar desleixado, às vezes, um verdadeiro porcalhão. Passo-me. Depois, ao fim do dia, chega a casa e pergunta pelo jantar, como se fosse um senhor feudal e eu a criada. Mas, filha, eu não sei cozinhar, podemos mandar vir uma pizza, se quiseres, não precisas de ficar assim, tão nervosa...&lt;br /&gt;Mas sabe cozinhar, está é sempre a inventar desculpas para tudo: desculpas para não querer um filho, desculpas para não arranjar um emprego melhor, desculpas para não me contar tudo sobre o passado dele...&lt;br /&gt;Desculpem este desabafo... Lendo o que já escrevi, quase que dou razão ao Jorge, de facto estou sempre em lamúrias. Às vezes, penso que esta ligação é um mero equívoco, que podia pensar melhor sobre se é isto que eu quero: um homem mais velho que me está constantemente a atirar à cara a sua superioridade: que é mais inteligente, que percebe melhor que eu os filmes, que não sei escrever, que a comida tem demasiado sal, que não me interesso por política (e devia), que não li o livro tal e tal (e devia), que podíamos ir viajar mas eu enjoo no avião, que devia ouvir música clássica em vez daquelas porcarias pirosas que ouço (telenovelas, horror, horror)...&lt;br /&gt;E, afinal, gosto dele. Gosto do humor dele, quando pára de ser cruel. Ontem, bebemos uma garrafa de vinho inteira e, como não estou habituada, fiquei um bocadinho alegre e o Jorge brincava com a minha roupa, a despir-me devagarinho, a desabotoar a blusa, e ia contando parvoíces, a fazer imitações. Ri que nem uma perdida. E, na semana passada, cheguei a casa e lá estava ele, de avental, a cozinhar um prato espectacular, enquanto fazia boquinhas, a imitar um chef francês.&lt;br /&gt;Um cómico inconsequente, eu sei, mas adoro aquele brilho dos olhos dele, nos dias bons.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115892300365960547?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115892300365960547/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115892300365960547' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115892300365960547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115892300365960547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/lamrias.html' title='Lamúrias'/><author><name>Rosinha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00359259517593381609</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115883844388524651</id><published>2006-09-21T12:33:00.000+01:00</published><updated>2006-09-21T12:34:03.893+01:00</updated><title type='text'>As personagens</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Dizem que a blogosfera está cheia de escritores falhados, que não conseguem publicar os seus livros de má qualidade. Confesso que sou um deles. O cinema tem um pequeno escritório, no andar por cima da sala de projecção e quando tudo está organizado, a última sessão a decorrer com normalidade, gosto de me sentar na minha mesa e alinhar duas ou três coisas no computador. Talvez aquilo seja literatura, não sei, mas não escrevo essas linhas para as publicar, portanto, não me importo de ser um escritor falhado.&lt;br /&gt;Antes de escrever no escritório, escrevia em casa, em caderninhos, sempre à mão. Só me habituei ao computador há oito anos, num período difícil da minha vida; na altura, tinha saído da reabilitação, arranjei um emprego de segurança nocturno; havia um velho computador e, sempre depois da uma da manhã (quando tinha de fazer uma ronda pelo edifício) escrevia à farta, até me cansar, para não adormecer. No fim, mandei tudo fora.&lt;br /&gt;Mas o vício ficou, embora nunca tenha escrito algo de jeitoso. Pequenas histórias, novelas incompletas, esboços de personagens, um caos ilegível em papel; talvez aqui possa funcionar, porque este meio é caótico por natureza e aceita tipos como eu...&lt;br /&gt;Estão a ver? Não era nada disto que eu pretendia dizer, mas as palavras foram surgindo, à balda. Pensei, neste post, em escrever sobre a minha dificuldade com personagens femininas. E, se penso bem nisso, as mulheres são geralmente o maior defeito dos romances escritos por homens. O companheiro Naves, aqui do labirinto, é um bom exemplo. A tendência é sempre descrever personagens muito boazinhas, suaves, sensuais. São, ao mesmo tempo, mães compreensivas, amantes idealizadas, têm a brandura do veludo; ou, em contraste, são terríveis e maldosas, inquietantes e bruxas. Podem também ser estúpidas como a noite ou ter a sabedoria de um Mahatma Gandhi.&lt;br /&gt;As minhas são sempre de um destes dois tipos, embora nunca tenha conhecido alguém vagamente semelhante às personagens femininas que povoam os meus livros por concluir. Enfim, digo eu, temos de estudar melhor o assunto.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115883844388524651?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115883844388524651/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115883844388524651' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115883844388524651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115883844388524651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/as-personagens.html' title='As personagens'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115878025434337928</id><published>2006-09-20T20:22:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T20:24:14.500+01:00</updated><title type='text'>Literatura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A avaliar por muito do que foi escrito entre 1910 e 1930, os homens jovens dessa época fantasiavam donas de pensões, viúvas nos seus trinta e muitos, experientes, ou criadas já sem virgindade, especializadas em volúpia sensual e pudor aldeão. Os jovens varões sonhavam com casos sem futuro, entre os lençóis de mulheres hábeis ou de raparigas submissas.&lt;br /&gt;Ao ler um excerto, ontem, de um livro esquecido, lembrei-me com nitidez desta minha especulação e percebi que as nossas fantasias são menos claras. Há uma imprecisão no tipo de mulher que nos faz sonhar com noites de luxúria. Se lermos alguns dos romances actuais (isto aplica-se a novelas como esta), a mulher que fascina os homens de hoje é bem sucedida, financeiramente independente, nada submissa. Sabe para onde vai e o que quer.&lt;br /&gt;Mas tudo isto pulsa no nível da fantasia, não no do concreto: em post posterior escreverei sobre a mulher que os escritores entre 1910 e 1930 consideravam ideal para casar... Veremos que também na actualidade existe um abismo entre o domínio do desejo e o da realidade...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115878025434337928?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115878025434337928/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115878025434337928' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115878025434337928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115878025434337928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/literatura.html' title='Literatura'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115877999411269083</id><published>2006-09-20T19:55:00.000+01:00</published><updated>2006-09-21T09:17:18.190+01:00</updated><title type='text'>Algumas pessoas nunca mudam</title><content type='html'>Era um grande porco de vidro azulado. À transparência, as moedas que não eram nossas mas dos meus pais cintilavam, despertando-nos a ganância e o desejo de carrinhos Matchbox infinitos. Aconteceu há anos e anos mas, ainda hoje, mantenho que a culpa foi do Pedro Machado. E tenho razão. &lt;br /&gt;Reparem, com nove anos ele já inventava que tinha estado na Legião Estrangeira. Só por isso, nunca se acreditava em nada do que dizia, mesmo que dissesse a verdade (Por outro lado, julgo que não conseguiria dizê-la mesmo que quisesse). Só num mesmo ano, ouvi-o jurar que o pai, que era taxista, tinha uma frota de Mercedes - uma «frota!!!» exclamava ele de olhos abertos como se assim acreditássemos mais - e que, nas férias, tinha ido ao Egipto e encontrado o nariz da Esfinge (acho que tinha lido no Astérix que a Esfinge não tinha nariz). Estão a ver o género.&lt;br /&gt;Quanto ao porco, foi o Pedro que teve a ideia. Não havia qualquer forma de saltarem as moedas, apenas a estreita ranhura no dorso azulado do animal. Vai dai, com uma faca, decidimos introduzi-la no porcino virado ao contráro e extrair as moedas à vez, tentando a nossa sorte. Eu, no entanto, estava nervoso, perturbado pelos dilemas morais e castigos futuros assegurados. E as nossas cabeças muito próximas enquanto a mão me tremia. A certa altura, a faca resvalou-me...&lt;br /&gt;No outro domingo, tinha ido almoçar uns robalinhos a um restaurante junto à praia com a Sónia e reconheci-o logo, mesmo de costas e em fato de banho. A voz era a mesma, exactamente igual e apenas um tom mais grace. E aposto que os olhos estavam muito abertos no momento em que o ouvi exclamar:&lt;br /&gt;«Esta cicatriz!? Eh pá! Isto foi quando estive na Legião Estrangeira!».&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115877999411269083?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115877999411269083/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115877999411269083' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115877999411269083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115877999411269083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/algumas-pessoas-nunca-mudam.html' title='Algumas pessoas nunca mudam'/><author><name>João Villalobos</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_Q613avG0uig/TFr8nd91qSI/AAAAAAAABkw/GdY19IsjMME/S220/joao_villalobos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115875423104558270</id><published>2006-09-20T13:08:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T23:03:03.226+01:00</updated><title type='text'>Pão com paio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O meu pai dizia que eu tinha pouca ambição, mas nesse tempo a Amadora era um subúrbio bolorento. Quando saí da tropa (acho que já foi em 85) fiquei meses em casa dos meus pais, sem saber o que fazer à vida. Fui-me habituando à indolência e passava a tarde nos cafés. Ficávamos ali horas, quatro ou cinco rapazes sem futuro, sentados numa mesa, a ver passar o que passava: o ocasional carro, a miúda a caminho da escola, as velhas em compras; por vezes, dizíamos alguma coisa. Quando chegavam os magotes de trabalhadores que vinham de Lisboa (desembarcavam a partir das cinco na estação de comboio, como se fossem uma cheia inesperada) pagávamos as cervejas e regressávamos a casa. Depois, à noite, saía de novo, e pastava por ali, na rua quando fazia bom tempo, no clube recreativo quando chovia, e gastava-me em conversas banais, no meio do fumo do tabaco, a respirar o ar que cheirava a cerveja derramada por tampos das mesas. E o ócio nunca mais passava, como se fosse uma doença contagiosa ou uma cruel enxaqueca.&lt;br /&gt;Certo dia, comprei um bilhete de comboio para Paris. A ideia foi mordendo aos poucos e tornou-se mais sólida ao fim de um dia esvaziado, quando cheguei a casa tão bêbado, que a minha mãe acordou com o barulho que fiz, ao chocar com a arca que tínhamos junto à entrada. Ela saiu do quarto em camisa de noite, aflita. Acendeu a luz e vi-lhe a expressão de dor.&lt;br /&gt;Apanhei o comboio na semana seguinte. Ainda me lembro da excitação que senti enquanto a paisagem luminosa deslizava. Todos os lugares do compartimento estavam cheios, com gente que trazia a sua vida dentro de malas e sacos. E lembro-me de pensar que aquilo não passava de uma aventura alegre, até ao momento em que uma mulher dos seus cinquenta anos, meio desdentada, que se sentava à minha frente, me falou abertamente (só tínhamos trocado conversa chocha), ao desenrolar um paio embrulhado em pano, abrindo um pão grande:&lt;br /&gt;“Não tem nada para comer?” perguntou ela.&lt;br /&gt;Encolhi os ombros, disse-lhe que talvez comesse no vagão-restaurante.&lt;br /&gt;“Qual quê!”, exclamou a mulher. “Se vai para Paris, tem de poupar todo o seu dinheiro! Sirva-se”.&lt;br /&gt;Obedeci. Estava cheio de fome e comi o que me foi dado, embalado pela trepidação do longo comboio e a perceber, como que atingido por um relâmpago: aquele era o dia em que tudo recomeçava na minha vida. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115875423104558270?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115875423104558270/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115875423104558270' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115875423104558270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115875423104558270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/po-com-paio.html' title='Pão com paio'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115869288953148651</id><published>2006-09-19T20:07:00.000+01:00</published><updated>2006-09-19T20:48:25.063+01:00</updated><title type='text'>Ilusão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ao ler a história que o Cláudio contou aqui em baixo, lembrei-me que retiro grande prazer dos acasos que compõem a minha existência. Aliás, penso que tudo o que nos rodeia faz parte dessa imatéria, misturada com sonhos e retirada da turba dos pensamentos, que cimenta a condição humana. (Se lerem bem, dirão que pareço incoerente, mas gosto em particular de uma frase do cinema, “Eu sempre me contradigo”, do belíssimo &lt;em&gt;Vitória Amarga&lt;/em&gt;, de Nicholas Ray, que se não me engano é de 1957. Só em preto e branco se poderiam filmar estas paisagens da alma, com o jogo de contrastes da luz e da sombra).&lt;br /&gt;Se alguém diz que retira prazer dos acasos, talvez a conclusão seja a de que esta pessoa não acredita em Deus. Não sei se acredito ou não, talvez não acredite, mas então eu sempre me contradigo, portanto, talvez possa também acreditar.&lt;br /&gt;Não sei se o mundo é um fio de acasos ou se o destino marca o ritmo do mundo.&lt;br /&gt;Só sei que senti hoje uma espécie de bater mais forte dos sentidos, uma sensação de leveza maior, ao encontrar aquela mulher que nunca mais verei e que, pensando bem, começo lentamente a esquecer, enquanto se dissipam os contornos, num preto e branco contrastado, feito de pigmentos de nostalgia e desejo.&lt;br /&gt;Ela estava a meu lado, a observar os objectos numa montra, quando surgiu uma outra jovem, que lhe perguntou o melhor caminho para um sítio qualquer. A imprecisão com que respondeu logo eu rectifiquei, que talvez fosse melhor um outro percurso. E nessa pequena troca, a nossa primeira e última, com a delicadeza de uma pena, sentimos ambos que se formava uma ponte entre o delírio oculto dos nossos seres.&lt;br /&gt;Depois, cada um foi para seu lado, com um sorriso que permaneceu por algum tempo, mesmo quando já não nos víamos, cada um na sua parte do tumulto da manhã. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115869288953148651?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115869288953148651/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115869288953148651' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115869288953148651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115869288953148651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/iluso.html' title='Ilusão'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115859968652642144</id><published>2006-09-18T18:13:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T18:16:56.780+01:00</updated><title type='text'>O autêntico rei</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fui o autêntico e único Rei da Peluda. Os outros eram usurpadores. O Naves fez o favor de colocar isso bem explícito no romance que escreveu sobre o tema. Alterou o nome dos outros e inventou personagens, mas eu era o genuíno.&lt;br /&gt;O tempo passou. Sou gerente de um pequeno cinema de bairro, falido como a merda. Vivo com uma namorada quase vinte anos mais nova, mas acho que ela já não me atura. Gosto de filmes e boa comida, de fazer as minhas loucuras de vez em quando. Mas, vendo bem, já não há loucuras para fazer. Além disso, estou meio careca, engordei, tenho tensão alta e colesterol.&lt;br /&gt;O que vou eu escrever neste blog? Sou alguém que podia ter sido, que tinha talento para ter sido, sou alguém que nunca fui. A minha namorada diz que tenho manias de velho e que sou chato como a potassa. É sobre isso que vou escrever, os sonhos que nunca vivi e as manias que foram aparecendo. O meu cinema em desgraça e os filmes que nele passam. A cidade melancólica e nocturna. E também algumas lembranças de um tempo que não regressará jamais, ao estilo de &lt;em&gt;recuerdo &lt;/em&gt;de pequeno turista.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115859968652642144?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115859968652642144/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115859968652642144' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115859968652642144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115859968652642144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-autntico-rei.html' title='O autêntico rei'/><author><name>Jorge</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18077772721447484099</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115857806971804109</id><published>2006-09-18T12:13:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T12:14:29.720+01:00</updated><title type='text'>O abismo da vida humana</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao Domingo, junta-se toda a família em casa do meu irmão mais velho, que tem uma vivenda (é construtor civil e a casa dele é suficientemente grande para todos). Tenho quatro irmãos, todos casados (sou o único solteiro), Às vezes vai também o meu tio, que é o meu patrão, dono da barbearia onde trabalho. Mas não era o caso. Estávamos só nós: eu, os meus irmãos e o meu pai.&lt;br /&gt;Comemos muito bem (a minha cunhada é uma excelente cozinheira) e o meu pai, que é viúvo (a mãe morreu há dois anos) estava muito feliz e começou a contar uma história, de uma namorada que tinha tido antes de conhecer a nossa mãe. Nós rimos, imaginando o namoro; e tentámos adivinhar a razão do namoro não ter sido bem sucedido. Alguém perguntou isso mesmo, porque razão não tinha casado. O velho fez uma pausa, ficou a olhar para nós, subitamente com ar sério. Podia perfeitamente ter casado com ela, disse ele, não aconteceu por simples acaso. Então, depois de afirmar isto, o meu pai ficou com uma expressão que só lhe tinha visto no funeral da minha mãe, como se estivesse a ver o fundo de um poço e, lá dentro, almas aprisionadas.&lt;br /&gt;Nenhum de nós estaria aqui, disse ele. Só eu, talvez, e não seria aqui, mas noutro sítio. E percebemos que imaginava uma vida alternativa, em que tinha casado com essa mulher, tido outros filhos e outros netos. Estaria a almoçar com essas outras pessoas, em outro sítio qualquer.&lt;br /&gt;Olhámo-nos, subitamente conscientes de que éramos os filhos de uma circunstância irrepetível, uma teia de acontecimentos só possíveis uma única vez, num único tempo e espaço.&lt;br /&gt;Senti um súbito arrepio e penso que o mesmo sucedeu aos meus irmão. Pensei, de repente, em todas aquelas pessoas que podiam ter existido, mas que nunca tinham existido; talvez melhores do que eu, talvez piores... E, por um infinito segundo, também vi o abismo que é a vida humana... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115857806971804109?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115857806971804109/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115857806971804109' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857806971804109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857806971804109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-abismo-da-vida-humana.html' title='O abismo da vida humana'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115857796390170746</id><published>2006-09-18T12:11:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T12:12:43.903+01:00</updated><title type='text'>Agente imobiliário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Daniel A Feliciano, agente imobiliário. Fica sempre bem apresentar um cartão aos clientes e o A no nome produz impacto, intriga as pessoas, faz com que tenham maior respeito. A minha profissão obriga-me a andar de um lado para o outro, a contactar muita gente. Ganha-se bem, mas é irregular. Felizmente, agora, o mercado anda numa roda-viva, sobretudo nos preços mais elevados.&lt;br /&gt;Comecei a trabalhar logo a seguir à tropa, em Cascais, numa imobiliária que pertencia a um inglês de origem húngara, uma figura imponente, de olhar azul penetrante. O verdadeiro nome dele era István, mas no cartão vinha escrito Stephen. O nome restante era inglês, tradução literal, neste momento não me lembro da versão húngara, talvez volte a este assunto. Trabalhei dez anos com ele e, antes do Stephen morrer, contou-me umas histórias do tempo da guerra. Até me deixou um caderninho, escrito em inglês, numa letra minúscula. Não tinha família, tratava-me como se fosse o filho dele. Ensinou-me tudo o que é preciso saber sobre as classes altas.&lt;br /&gt;Mas não era isto que eu queria contar. No meu trabalho, conheço muita gente, incluindo pessoas importantes. Antes do Verão, vendi uma casa caríssima a um casal. Ele era bastante mais velho, nos seus sessenta, um doutor com cargo importante; ela, era uma mulher redondinha e baixa, do mais sensual que tenho visto, com cabelo arruivado, lábios grossos e sorriso fácil. Deitava-me uns olhares, que ferviam!&lt;br /&gt;A casa estava vazia, claro, por isso parecia maior do que era; tinha uma vista espectacular de Lisboa!&lt;br /&gt;Aconteceu depois de lhes mostrar a casa de banho. Era do tamanho de uma sala e tinha, no meio, uma banheira com &lt;em&gt;jacuzzi&lt;/em&gt; onde cabiam umas quatro pessoas. Uma verdadeira piscina, em mármore, bem iluminada e lisa. Eu tinha estudado a casa numa folhinha preparada por um colega e, ao ver aquele luxo, também fiquei impressionado.&lt;br /&gt;A banheira mexeu com a imaginação dela, a mulher passou-se. Ainda andámos pelas divisões, mas o doutor ia à frente, para investigar cada recanto e, não sei como, ela conseguia arrastar-me para outra divisão, empurrava-me com suavidade, tocava-me no braço, fazia-me perguntas em voz baixa e sussurrante, mas aproximava-se cada vez mais; uma vez encostou-se e senti o peito dela, o calor do corpo. E o marido ali, a cinco metros, talvez a fingir não perceber.&lt;br /&gt;Foi na cozinha que ela me tocou no sexo e me largou aquele olhar esfomeado e trágico do desejo. Um olhar que se cravou na minha memória e que nunca mais lhe vi, mesmo depois de a reencontrar, quando ela me telefonou por um pretexto qualquer, obrigando-me a visitá-la. O resto, vocês adivinham...&lt;br /&gt;Mas, juro, aquele único momento, um toque quase juvenil, foi o melhor da nossa breve relação... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115857796390170746?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115857796390170746/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115857796390170746' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857796390170746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857796390170746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/agente-imobilirio.html' title='Agente imobiliário'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115857781644401459</id><published>2006-09-18T12:09:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T12:10:16.456+01:00</updated><title type='text'>Teoria da reportagem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nunca gostei muito de teorias em matéria de jornalismo, que é uma actividade sobretudo ligada ao quotidiano, mas tenho a minha própria teoria da reportagem: quanto melhor é a realidade, menos ornamentos deve ter a escrita. Até a verdade ficar tão despida, que se torna brutal...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115857781644401459?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115857781644401459/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115857781644401459' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857781644401459'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115857781644401459'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/teoria-da-reportagem.html' title='Teoria da reportagem'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115852973587925042</id><published>2006-09-17T22:46:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T22:48:55.886+01:00</updated><title type='text'>E vão três</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No tempo da tropa, no anos 80, chamavam-nos os reis da peluda. O grupo tinha quatro, como os mosqueteiros, que sendo apenas três, afinal eram quatro.&lt;br /&gt;Eu sou o Cláudio. Trabalho numa barbearia, o que até tem graça, considerando que fui um dos reis da peluda.&lt;br /&gt;Na altura, eu era o mais novo dos quatro, porque fui parar com os costados em Mafra depois de chumbar no décimo segundo. Nunca acabei o liceu e, depois de alguns azares, vim parar a esta barbearia, que pertence a um tio meu. Foi onde consegui emprego e, habituei-me... Em Mafra, conhecíamo-nos uns aos outros pelos apelidos: eu era o Silva, uma condenação ao anonimato, suponho; depois havia o Naves (que era um bocadinho armado em superior, com aquele seu ar de falso distraído, mas que topa tudo) e o Feliciano...&lt;br /&gt;O Feliciano apareceu aqui um dia na barbearia e foi como se nunca me tivesse visto na vida. Eu estava parvo. Ele olhava para o espelho e não me reconhecia. Eu a sorrir, a meter-me com ele, e era como se fosse invisível. O barbeiro não podia ser alguém familiar, suponho. Até que a coisa foi demasiado óbvia. Oh Silva, protestava, tás bom, pá? Falou como se não nos víssemos só há duas semanas. E tinham passado quase vinte anos! Comprei uma casa aqui, pá, disse ele, e depois convenceu-me a escrever no blogue, para ninguém esquecer os bons velhos tempos. Sou um barbeiro, pá, disse eu, mas ele não quis saber. Pente quatro, pá, ordenou. Era sempre ele a dar as ordens, a ter a última palavra.&lt;br /&gt;O Naves era caladão, mas tinha umas fúrias. Numa ocasião, fez uma berrata ao ler num jornal uma crítica literária. Imaginem! Mas isso não foi em Mafra, mas em Angra. Em Mafra, ainda só havia três, e ainda não éramos os reis da peluda.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115852973587925042?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115852973587925042/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115852973587925042' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115852973587925042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115852973587925042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/e-vo-trs.html' title='E vão três'/><author><name>Claudio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07805776430116891772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115851962886154119</id><published>2006-09-17T19:57:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T20:00:28.873+01:00</updated><title type='text'>Alto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Posso contar aqui uma história do Naves, penso que ele não me leva a mal.&lt;br /&gt;Na tropa, pelo menos naquela época, ele era o que chamávamos uma maria amélia, ou seja, um nhonhocas, um bimbo. Desculpem este meu tom informal, mas falo assim, não vejo razão para mudar, só porque este blogue tem pretensões de literatura, o que até me faz rir, porque nem tem leitores.&lt;br /&gt;Na tropa, o Naves (afinal, já somos suficientemente íntimos para eu escrever Luís) era inábil, não tinha vocação. Contou-me uma vez que se dá mal com a autoridade, faz-lhe urticária.&lt;br /&gt;Na instrução, em Mafra, fazíamos de instrutores e, nos exercícios de ordem unida, íamos à vez pôr o pelotão a marchar na parada. A coisa era um bocado ridícula: grupos de 30 tipos, todos muito alinhadinhos a andar de trás para frente, alto, direita, todos ao mesmo tempo, botas no chão, os ecos nas paredes grossas do velho convento, o diabo...&lt;br /&gt;Para verem como é o Luís, posso contar que ele estava de chefe de pelotão e andava por ali, todo contente, a mandar esquerda-direita a bom ritmo, sem jeito nenhum para aquilo, quando o instrutor (satisfeito ou insatisfeito, não sei) deu ordem de parar, dizendo alto, como era normal. Mas o bom do Luís já ia por ali fora, imaginava-se marechal ou coisa assim, começou a dar as ordens de esquerda-direita, mas apenas num tom de voz mais grosso. O instrutor, talvez surpreendido, (ninguém se tinha lembrado daquela), gritou ALTO e o bom do Luís, sem saber o que fazer, COMEÇOU A GRITAR, COM QUANTA FORÇA CONSEGUIA, ESQUERDA-DIREITA, e o instrutor ALTO, e ele ESQUERDA-DIREITA, até que o pelotão se desmanchou a rir e só assim ele percebeu, aquela cabeça lenta, que era para parar...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115851962886154119?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115851962886154119/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115851962886154119' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115851962886154119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115851962886154119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/alto.html' title='Alto'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115850949557621655</id><published>2006-09-17T17:10:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T17:11:35.576+01:00</updated><title type='text'>Convite</title><content type='html'>Agradeço o convite que me foi feito. Aceito contar aqui algumas histórias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115850949557621655?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115850949557621655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115850949557621655' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115850949557621655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115850949557621655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/convite.html' title='Convite'/><author><name>Daniel A. Feliciano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15849979738829018166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34571778.post-115850860161151768</id><published>2006-09-17T16:42:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T17:53:54.733+01:00</updated><title type='text'>O meu amigo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sempre achei que ele era uma figura estranha... Não posso dizer que seja meu amigo, mas conheci Daniel A. Feliciano (a estranheza daquele A. que ele insiste em incluir na assinatura)... Perdi-me, dizia eu que conheci o Daniel no serviço militar, depois desapareceu... Conta umas histórias estranhas, por vezes, nem sei se são verdade... Mas, enfim, o que é a verdade?&lt;br /&gt;Serve esta introdução para vos dizer que ele se apropriará deste espaço.&lt;br /&gt;Quando reapareceu na minha vida, o meu excêntrico e quase amigo Daniel dizia de vez em quando "Goza o dia, goza o dia", uma frase que me enervava. Depois, lí &lt;em&gt;Seize the Day&lt;/em&gt;, de Saul Bellow, e compreendi melhor (&lt;em&gt;Respirou do açúcar da manhã pura. Ouviu as longas frases dos pássaros. Nenhum inimigo queria a sua vida&lt;/em&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34571778-115850860161151768?l=o-meu-labirinto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/feeds/115850860161151768/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34571778&amp;postID=115850860161151768' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115850860161151768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34571778/posts/default/115850860161151768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://o-meu-labirinto.blogspot.com/2006/09/o-meu-amigo.html' title='O meu amigo'/><author><name>luisnaves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05824111665450247743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
